Casablanca (1942)

Casablanca (imagem: Doctor Macro)

A compra, em 1941, da peça Everybody Comes to Rick’s, pelo então chefe de produção da Warner Bros. Hal Wallis, deu inicio à produção de um dos mais famosos filmes de todos os tempos. Muito embora Casablanca seja um “produto” do studio system que vigorava em Hollywood na altura, é possível identificar o importante papel que Wallis teve no resultado final. O chefe de produção da Warner não se limitou apenas a supervisionar a produção do filme, a sua intervenção abrangeu todos os aspectos da produção, tendo, por exemplo, decidido ainda antes da compra da peça que Humphrey Bogard seria a estrela do filme.

Em 1942, Wallis pediu aos irmãos Epstein, dois dos melhores argumentistas da Warner, as suas opiniões sobre a peça que comprara. A resposta foi entusiasta e deve-se aos dois argumentistas grande parte do argumento do filme, em particular o humor e as transformações das personagens do Capitão Renault e de Rick (que lhes conferiram maior simpatia e interesse). Quando os irmãos Epsteins entregaram a primeira versão do argumento e continuavam a trabalhar no que faltava, Wallis pediu a outro argumentista do estúdio, Howard Koch, a sua opinião. O contributo de Koch permitiu melhorar ainda mais a personagem interpretada por Bogard e “encaixar” melhor na história algumas das suas atitudes.

A primeira escolha para realizador recaiu em William Wyler, mas a pretensão de Wallis não se concretizou e teve de recorrer ao seu amigo Michael Curtis. De origem húngara, Curtiz realizara mais de 60 filmes mudos na Europa antes de viajar para os Estados Unidos, onde foi recepcionado por Wallis, que na altura era ainda apenas um dos publicistas da Warner e os dois tornaram amigos desde esse momento. Quando Wallis lhe ofereceu Casablanca, Curtiz estava ocupado a terminar Yankee Doodle Dandy e não deu muita importância ao seu novo trabalho. No entanto, o papel do realizador foi preponderante, em particular no ritmo que imprimiu ao filme.

Também importante foi a escolha dos actores. Se Bogard foi a primeira (e única) opção para o papel principal, já a escolha de Ingrid Bergman se deveu ao facto de o seu contracto ser mais barato que o de Michele Morgan, actriz também considerada para o papel de Ilsa. Bergman vivia um momento menos feliz da sua vida e quando soube que tinha sido contratada a sua reacção foi um misto de nervosismo e excitação, reconhecendo que nada sabia sobre o filme. Para os restantes papeis a Warner conseguiu excelentes actores (dificilmente se consegue imaginar Casablanca sem Claude Rains ou Peter Lorre), tendo à sua disposição um vasto conjunto de actores europeus: estrelas nos seus países, grande parte deles tiveram de se exilar nos Estados Unidos durante a guerra, onde aceitavam papeis menores.

A rodagem de Casablanca iniciou-se no dia 25 de Maio de 1942, com grande parte do argumento já concluido. No entanto, para Wallis subsistiam ainda alguns problemas com a personagem de Ilsa e com o final da história. Muito embora os rumores em contrário, nunca houve muitas duvidas que Ilsa acompanharia Laszlo para Lisboa, o problema estava em como dar credibilidade ao final. A solução da peça original não era a melhor, tanto para mais que a entrada dos Estados Unidos na II Grande Guerra inviabilizava qualquer tipo de vitória para a Gestapo. Assim, o confronto final foi transferido para o aeroporto e a presença de Laszlo apanha Ilsa de surpresa, acompanhando-o na viagem para Lisboa.

Com o fim da rodagem, em meados de Julho, o compositor Max Steiner começou a trabalhar na banda sonora. Steiner não gostou de As Time Goes By e tentou convencer Wallis a substituir a canção por uma das suas baladas. Mas como Ingrid Bergman já tinha cortado o cabelo para o papel que iria interpretar em For Whom the Bell Tolls, não pode filmar novamente a cena e, assim, a canção manteve-se no filme.

Mesmo com a rodagem terminada, Wallis não deixou de melhorar o filme e em meados de Agosto acrescentou a cena do polícia a anunciar a morte de dois agentes alemães e fez Bogard gravar uma nova frase: “Louis, i think this is the beginning of a beautiful friendship“.

Casablanca estreou no dia 26 de Novembro de 1942 em Nova Iorque, mas só seria exibido a nível nacional em Janeiro do ano seguinte. O filme foi um dos sucessos de bilheteira de 1943 e numa sondagem onde participaram cerca de 435 críticos foi considerado o 5º melhor do ano. No entanto, Casablanca acabaria de ganhar o Óscar para melhor filme, melhor realizador e melhor argumento.

Talvez com a excepção das interpretações de Bogard e Bergman, não há nada mais em Casablanca que se possa considerar de excepcional. No entanto, no seu todo, é um filme maravilhoso, em que todos os seus elementos combinam na perfeição, fazendo dele um dos melhores da história da sétima arte.

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Casablanca EUA, 1942, 102 min., drama. Warner Bros. Realizador: Michael Curtiz. Argumento: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch e Casey Robinson (sem crédito), baseado na peça “Everybody Comes to Rick’s” de Murray Burnett e Joan Alison. Actores: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre, Dooley Wilson.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Casablanca é o refugio para exilados de guerra e o ponto de passagem para Lisboa a caminho dos Estados Unidos. Rick Blaine, exilado americano, é dono do clube nocturno mais popular de Casablanca, local de intriga e conspirações. Quando Victor Laszlo (líder da resistência) chega a Casablanca acompanhado de Ilsa, Rick vê-se confrontado em ajudar a mulher que o abandonou anos antes em Paris.

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The End

© Rui Chambel. cinema[@]chambel.net

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