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As Histórias da História da Sétima Arte

Historia do Cinema: 1950-1959

A Nova Vaga

O realizador François Truffaut (1º à esquerda) durante filmagens

O realizador François Truffaut (1º à esquerda) durante filmagens

A década de 50 é marcada pelo acentuar das mudanças provocadas pela II Grande Guerra e revela-se propícia para o desenvolvimento de uma nova mentalidade cinematográfica. Se na Europa tentava-se reconstruir cinematografias com a ajuda do estado, no outro lado do Atlântico a industria cinematográfica enfrentava o estado, nomeadamente nas investigações do Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas e na decisão do Supremo Tribunal de obrigar os estúdios de Hollywood a desfazerem-se das suas salas de cinema.

Iniciada em 1948, o Comité investigou dezenas de profissionais da industria cinematográfica suspeitos de actividades comunistas. Todos os que revelassem ter tido alguma ligação ao partido comunista (verdadeiramente ou resultado de denuncias) e os que que se recusavam a colaborar com o Comité, eram presos, sujeitos a multas e impedidos de trabalhar na industria. Mesmo após o fim da actividade do Comité, em meados da década, a maioria dos profissionais banidos continuavam sem conseguir trabalhar e demorou décadas até que a industria colmata-se as injustiças feitas

A venda das salas de cinema que os estúdios possuiam levou a que procurarem outras fontes de receitas e o aparecimento da televisão foi, ao mesmo tempo, uma bênção e uma dor de cabeça. Se por um lado, a televisão “roubou” espectadores às salas de cinema, também permitiu aos estúdios ganharem dinheiro com a venda de filmes para o pequeno ecrã e alguns aproveitaram as suas estruturas para produzirem conteúdos televisivos.

Para combater a fuga de espectadores das salas de cinema, os estúdios começaram a apostar em avanços tecnológicos, como os filmes a três dimensões e em sistemas de projecção de grande formato. Se os filmes a três dimensões, que necessitavam de uns óculos especiais para serem apreciados, não passaram de uma curiosidade, já os sistemas de projecção de grande formato, como o CinemaScope, contribuíram para o surgimento do cinema espectáculo. Assim, chegam ao grande ecrã filmes como Os 10 Mandamentos, A Volta ao Mundo em 80 Dias, Serenata à Chuva e Um Americano em Paris: verdadeiros acontecimentos cinematográficos, que marcaram a década e são, ainda hoje, marcos da história da sétima arte.

Mas dos estúdios não saíam apenas filmes espectaculares e obras como Há Lodo no Cais, O Comboio Apitou Três Vezes e A Desaparecida reflectem uma sensibilidade mais realista e influenciada pelo pós-guerra.

Após anos de quase obscuridão, a Europa vê as suas cinematografias recuperar e a década de 50 revelou-se bastante criativa e marcou uma ruptura com o passado. A França lidera essa mudança com o surgimento, no final da década, da Nouvelle Vague. Tendo por base uma visão cinematográfica mais livre e realista, onde o realizador é o autor da obra cinematográfica, o movimento deu a conhecer realizadores como François Truffaut, Alain Resnais, Jean-Luc Godard, Roger Vadim, entre outros. Grande parte destes realizadores começou as suas carreiras na revista Cahiers du Cinéma e os seus trabalhos, como Hiroshima, meu Amor, Os 400 Golpes, E Deus Criou a Mulher, entre outros, reflectem a própria sociedade em que vivem, muito longe da fantasia importada de Hollywood.

À semelhança do que se passava em França, também o cinema italiano sofre uma transformação graças a realizadores como Michelangelo Antonioni, Bernardo Bertolucci e Federico Fellini, cujos trabalhos reinventaram o cinema italiano, dando-lhe uma projecção internacional.

Na Suécia, o realizador Ingmar Bergman tem uma das suas décadas mais produtivas realizando Morangos Silvestres, O Sétimo Selo e Sorrisos de Uma Noite de Verão, que o consagram internacionalmente.

Génerico de "A Túnica", o primeiro filme a utilizar o sistema de ecrã grande CinemaScope

Génerico de "A Túnica", o primeiro filme a utilizar o sistema de ecrã grande CinemaScope

Timeline, Década 1950-1959

1950

  • A Warner Bros., a Lowe's, a RKO Radio Pictures e a 20th Century Fox são obrigadas a venderem as suas salas de cinema.
  • A Ilha do Tesouro é a primeira longa-metragem de acção (não-animada) dos estúdios Disney.
  • Sob o comando do produtor Arthur Freed, os musicais da Metro-Goldwyn-Mayer atingem o ponto alto durante a década.
  • O western é outro género cinematográfico em alta durante a década, destacando-se obras de realizadores como John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann, entre outros.
  • A França produz, durante a década, uma média de 110 filmes por ano.
  • Devido à escassez de fundos e a uma política restritiva, os filmes da Alemanha Ocidental são, durante os anos 50, muito limitados a nível criativo.
  • São criadas, no Japão, duas novas produtoras: Shin-Toho e a Toei, que se tornariam nas duas mais importantes do país.
  • Reflectindo o período pós-independência que o país vive durante os anos 50, os melodramas são muito populares na Índia.
  • O México produz, durante os primeiros anos da década, uma média de 150 longas-metragens por ano.
  • O governo inglês cria um fundo de apoio à produção cinematográfica, mas sem grande sucesso.
  • Até à morte de Joseph Stalin, em 1953, a produção russa é dominada por filmes anti-ocidente.
  • Muito embora um alto imposto sobre o entretenimento que limita a produção cinematográfica na Suécia, o país produz aclamados dramas domésticos, entre eles, os realizados por Ingmar Bergman.

1951

  • O Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas continua as suas investigações contra alegados comunistas, usufruindo das denúncias de membros da comunidade cinematográfica sobre colegas.
  • Deixa de ser utilizada a película à base de nitrato de celulose, uma vez que a sua instabilidade provocou a destruição de metade dos filmes produzidos nos Estados Unidos.
  • O Código de Produção, que rege a produção dos estúdios de Hollywood, passa a incluir as drogas e o aborto como temas proibidos.
  • Louis B. Mayer demite-se da chefia da Metro-Goldwyn-Mayer.
  • Marilyn Monroe assina um contracto de longa duração com a 20th Century Fox.
  • Maurice Chevalier é proibido de entrar nos Estados Unidos devido a um suposto apoio a grupos comunistas.
  • É testada, em Chicago, uma versão de televisão paga, cujos clientes tinham direito a ver filmes novos.
  • A Columbia Pictures cria a Screen Gems para produzir programas de televisão.
  • Os jornalistas André Bazin e Jacques Doniol-Valcroze criam, em França, a revista Cahiers du Cinéma.
  • Rashmon ganha o principal prémio do Festival de Veneza e relança a industria cinematográfica japonesa.

1952

  • Nos Estados Unidos, o número de espectadores atinge o valor mínimo de 51 milhões, contra os 90 milhões em 1948.
  • Os estúdios americanos tentam combater a ameaça da televisão com “truques tecnológicos”, como os filmes a três dimensões e o processo de ecrã de grande formato Cinerama. Bwana Devil foi o primeiro filme em 3D e necessitava de óculos especiais para ser apreciado. This is Cinerama foi o primeiro filme a utilizar a nova tecnologia desenvolvida pela Paramount Pictures, tendo arrecadado 32 milhões de dólares aquando da sua (limitada) estreia.
  • A Warner Bros. e a 20th Century Fox abandonam a produção de filmes B.
  • Nas audiências do Comité de Investigação de Actividade Anti-Americanas, o realizador Elian Kazan revela que ele e o escritor Clifford Odets são comunistas.
  • A popularidade de Marilyn Monroe aumenta após aparecer nua num calendário e de ser tema de capa da revista Life.
  • James Stewart é um dos primeiros actores a receber parte dos lucros de um filme.
  • No Canada, a região do Quebec é a única com produção cinematográfica consistente durante a década.
  • A vida contemporânea e problemas pessoais são temáticas recorrentes na produção cinematográfica da Alemanha do Leste desde o início da década.
  • Com a revolução nacional, ocorrida neste ano, os filmes egípcios reflectem a realidade social.

1953

  • O processo de ecrã largo CinemaScope faz a sua estreia com o épico A Túnica, sendo anunciado como “o milagre do entretenimento moderno que pode ser visto sem o uso de óculos”.
  • A cerimónia de atribuição dos Óscares é transmitida pela primeira vez na televisão.
  • Marilyn Monroe é tema de capa e das páginas centrais da revista Playboy.
  • A Associação de argumentistas permite que os nomes de profissionais suspeitos de actividades comunistas sejam retirados da ficha técnica dos filmes.
  • A co-produção de filmes entre os Estados Unidos e países europeus torna-se uma prática comum durante a década.
  • O cinema italiano renasce do declínio do neo-realismo graças ao trabalho de realizadores como Federico Fellini e Michelangelo Antonioni.

1954

  • Howard Hughes adquire a totalidade das acções da RKO Radio Pictures e torna-se no primeiro particular a deter a totalidade de um estúdio de cinema.
  • A RKO vende a sua colecção de filmes a canais de televisão e, nos anos seguintes, outros estúdios seguem o mesmo caminho.
  • Os filmes ingleses provenientes dos estúdios Ealing, Korda e Rank são os primeiros a passarem na televisão americana.
  • Num artigo da revista Cahiers du Cinéma, o crítico francês François Truffaut introduz o termo “política de autor” e altera a perspectiva como é vista a crítica cinematográfica.
  • O primeiro filme da trilogia Pokolenie, de Andrzej Wajda, dá ínicio à revitalização do cinema polaco.
  • Após a morte de Stalin, a União Soviética começa a produzir mais filmes de carácter humanista.

1955

  • James Dean morre num acidente de automóvel, pouco depois de ter rodado o seu terceiro filme, O Gigante.
  • A Warner Bros. começa a produzir programas de televisão.
  • A Columbia Pictures aluga os seus filmes, produzidos antes de 1948, a canais de televisão.
  • Charlie Chaplin vende as acções que detinha da United Artists. Mary Pickford, uma das fundadoras do estúdio conjuntamente com Chaplin, tenta adquiri-las, mas é ultrapassada por Samuel Goldwyn.
  • O estúdio inglês Ealing fecha as suas portas.
  • Satyajit Ray estreia Pather Panchali, o primeiro filme da trilogia Apu.

1956

  • Daryl Zanuck abandona a 20th Century Fox e torna-se num produtor independente.
  • As restrições do Código de Produção sobre o aborto e outros assuntos sensíveis tornam-se menos apertadas.
  • A Warner Bros. vende os seus filmes produzidos até 1950 a um grupo de investidores.
  • A nomeação de Michael Wilson para o Óscar de melhor argumento pelo filme Sublime Tentação é proibida porque o argumentista recusou colaborar com o Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas e estava na lista negra.
  • O noticiário (newsreel) da Warner-Pathé deixa de ser produzido, vítima da televisão.
  • Na Grã-Bretanha, o movimento contra o sistema, designado por "Cinema Livre", é liderado por jovens realizadores como Lindsay Anderson e Tony Richardson.

1957

  • Morrem 0 actor Humphrey Bogard e o antigo responsável pela Metro-Goldwyn-Mayer, Louis B. Mayer.
  • A RKO Radio Pictures e a Republic Films abandonam a produção cinematográfica e dedicam-se à produção para televisão.
  • A Universal Films aluga os seus filmes a canais de televisão.
  • A Paramount Pictures abandona a produção do seu serviço noticioso (newsreel).
  • Tem início o primeiro festival internacional de cinema dos Estados Unidos: O Festival de Cinema de São Francisco.
  • A United Artists recupera da crise em que se encontrava graças ao trabalho de realizadores independentes como Otto Preminger e Stanley Kramer.
  • Em França, o fundador da revista Cahiers du Cinéma, André Bazin, apoia a teoria do “cinema de autor”, que defende o realizador como autor do filme.

1958

  • A Paramount Pictures vende os direitos sobre os seus filmes produzidos antes de 1948 à MCA, sendo o último dos grandes estúdio a faze-lo.
  • A Paramount permite que produtores independentes utilizam os seus estúdios.
  • Como golpe publicitário para o seu filme Macabre, o produtor William Castle faz um seguro de mil dólares contra o risco de alguém morrer de susto.
  • É revelado que um dos dois argumentistas que ganharam o Óscar para melhor argumento pelo filme Os Audaciosos é Nedrick Young, que estava na lista negra do Comité de Investigação de Actividades Anti-americanas.
  • Colaboradores da revista Cahiers du Cinéma, entre outros, criam o movimento Nouvelle Vague. Os realizadores Claude Chabrol e François Truffaut destacam-se como “praticantes” do movimento.
  • Em França, o eleito presidente da república, Charles De Gaulle, cria um programa governamental de apoio à produção cinematográfica.
  • A produtora inglesa Hammer Films alcança sucesso graças aos seus filmes de terror.

1959

  • Os filmes da Nouvelle Vague, entre eles Os Os 400 Golpes e Hiroshima, Meu Amor, revigoram o cinema francês e ganham reconhecimento internacional.
  • Nos Estados Unidos, a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas volta a permitir a nomeação de profissionais que estavam na lista negra do Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas.
  • O presidente soviético Nikita Khruschev visita Hollywood e com desagrado assiste ao filme Can-Can.
  • Os filmes de Elizabeth Taylor são proibidos no Egipto, após a actriz ter participado na angariação de fundos a favor de Israel.
  • John Wayne é acusado pelo Governo do Panamá de interferir na política do país após ter pago meio milhão de dólares ao activista Roberto Arias.
  • A Janus Films, uma distribuidora de filmes estrangeiros nos Estados Unidos, ganha fama e sucesso com os filmes de Ingmar Bergman.
  • Hércules é o primeiro de uma série de filmes italianos dobrados em inglês a ter sucesso nos Estados Unidos.
  • O preço dos bilhetes de cinema nos Estados Unidos desce ao longo da década como forma de combater a televisão.

Texto de Rui Chambel

O Declinio da Pathé Frères nos Estados Unidos

No final da década de 1900, o cinema deixou de ser visto como uma novidade e começou a transformar-se numa industria de pleno direito. O melhor exemplo disso mesmo é o número de espectadores semanais nos Estados Unidos: em 1909, 45 milhões de pessoas gastavam 5 ou 10 cêntimos de dólar (dependendo da localização da sala) para assistir a um filme, o que representava receitas de 3 milhões de dólares por semana. Os números tornam-se ainda mais impressionantes se comparados com o presente: em 2005 houve menos 900 milhões de espectadores do que em 1909, cujo total anual foi de 2.34 biliões de espectadores.

Com 10 mil nickelodeons em funcionamento e empregando mais de 100 mil pessoas, o cinema era, nos Estados Unidos, uma industria que ganhava cada vez mais peso na economia do país. No entanto, o panorama cinematográfico era dominado por uma empresa estrangeira: a francesa Pathé Frères. Com as suas produções de qualidade, a Pathé era a única empresa com os recursos para “alimentar” um mercado tão vasto e cujo público exigia filmes novos todas as semanas. Para além da qualidade dos seus filmes, a Pathé beneficiou das lutas que as diversas produtoras norte-americanas travavam entre si por causa de patentes e licenças e que as impedia de se concentrarem na produção de filmes. Perante este cenário, os filmes da Pathé dominavam 60% do mercado americano e parecia que o domínio da produção “fabril” da empresa francesa estava para durar, mas…

Na década de 1910, a produção cinematográfica norte-americana…americanizou-se, apostando em temas que os norte-americanos se identificavam. Assim, começou-se a assistir, não só ao aumento de westerns, com o cowboy e o índio como dois icons nacionais, mas também a dramas centrados em temas sociais do país, como A Corner in Wheat sobre a luta dos criadores de trigo norte-americanos.

Ao mesmo tempo que ocorria a americanização da produção, as principais empresas produtoras formavam a Motion Pictures Patentes Company (MPPC), criando um monopólio que deixava de fora os produtores independentes. Com a Kodak a concordar em vender película apenas aos membros da MPPC e esta a distribuir filmes apenas a exibidores licenciados por ela, a Pathé optou por integrar a MPPC, ajudando a excluir os independentes e, por consequência, as produções estrangeiras. Com a sua posição enfraquecida, a Pathé reorganizou a sua produção e apostou em filmes “americanos”, mas o mal estava feito.

Embora continua-se a manter uma forte presença nos Estados Unidos até ao inicio da I Grande Guerra Mundial, nomeadamente através da sua invenção os newsreels, o domínio da Pathé nos Estados Unidos tinha acabado.

Texto de Rui Chambel

Historia do Cinema: 1940-1949

A influência da II Grande Guerra no panorama cinematográfico mundial

A actriz Bette Davies a servir um soldado americano na cantina militar "Hollywood Canteen"

A actriz Bette Davies a servir um soldado americano na cantina militar "Hollywood Canteen"

A 2ª Grande Guerra Mundial é o grande acontecimento da década de 1940 e está na origem da mudança do panorama cinematográfico mundial, reflectindo-se no número de filmes produzidos e nos temas abordados.

Inevitavelmente, a Europa foi onde os efeitos do conflito se mais fizeram sentir: se por um lado grande parte dos países viram a sua produção diminuir drasticamente, outros, como a Alemanha e a União Soviética, chegaram a aumentar a sua produção. Devido ao regime vigente, a Alemanha manteve uma produção activa com mais de mil filmes produzidos durante os anos em que Adolph Hitler esteve no poder, na sua maioria filmes de propaganda. Após a guerra e com a divisão da Alemanha, a produção igualmente se dividiu, reflectindo visões artísticas diferentes. No caso soviético e com a entrada do país na guerra, em 1941, a produção cinematográfica centrou-se em documentários de propaganda, em filmes de entretenimento e dramas, como Ivan, o Terrivel (Parte I) de Sergei Eisentein.

Um dos reflexos do conflito foi o êxodo de pessoas para os Estados Unidos. França não fugiu à regra e os realizadores que se mantiveram no país concentraram o seu trabalho em produções históricas ou alegóricas, destacando-se os trabalhos de Marcel Carné e Robert Bresson.

O pós-guerra na Europa é marcado pelas medidas contra o cinema americano, na tentativa de desenvolver as várias cinematografias nacionais. O melhor exemplo é a criação, em França, do Centre National de la Cinématographie (CNC), ainda hoje um importante pilar na indústria cinematográfica francesa.

Ao contrário da Europa, a produção cinematográfica americana do inicio da década é pujante e capaz de produzir filmes tão diversos como: Vinhas da Ira (drama social), Rebecca (thriller), Casamento Escandaloso (comédia) e O Grande Ditador (sátira). Com a entrada do país na guerra, Hollywood contribuiu também com a sua parte, quer através do recrutamento de actores e outros criativos para a frente de batalha, quer com a produção de filmes de “propaganda”: recorde-se o trabalho do realizador Frank Capra para o exército e filmes de ficção como A Família Miniver, Desde que Tu Partiste, Forja de Heróis, Trinta Segundos sobre Tóquio e, o melhor exemplo de todos, Casablanca.

O inicio da década é também marcada pela estreia do que é considerado como o melhor filme de todos os tempos: O Mundo a Seus Pés. Escrito, realizado e interpretado por um jovem Orson Welles, o filme cedo se viu envolto em polémica devido ao facto de relatar a história do magnata William Hearst, que tudo fez para impedir a distribuição do filme, acabando este por ser um fracasso de bilheteira.

Com o final da guerra avizinhava-se bons tempos para o cinema americano, tanto para mais que o ano de 1946 revelou-se o mais lucrativo até ai. No entanto, um conjunto de factores ensombrou a indústria cinematográfica americana, nomeadamente: greves e a inflação, que provocaram o aumento dos custos de produção; as restrições europeias à importação de filmes americanos; e o aparecimento da televisão. O resultado foi o declínio do número de espectadores de 90 milhões em 1948 para menos de 50 milhões, dez anos mais tarde.

Paralelamente, os estúdios de Hollywood sofreram um rude golpe quando, em 1948, por ordem do governo, tiveram de se desfazer das salas de cinema que detinham. Os estúdios ficaram, assim, sem forma de escoar directamente os seus filmes (e controlar o mercado), passando a ficar sujeitos às exigências dos exibidores e dividir os lucros com estes.

1948 ficaria ainda marcado pelo inicio do Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas, que tinha por objectivo investigar supostas actividades subversivas e erradicar a presença comunista na América. Embora tenha investigado vários sectores da sociedade, Hollywood foi o alvo preferencial do Comité devido à sua alta visibilidade. As investigações levaram à suposta identificação de um vasto número de pessoas com ligações ao partido comunista, tendo estes sido banidos de Hollywood durante anos. Alguns, nomeadamente argumentistas, conseguiram trabalhar sob pseudónios, como foi o caso do vencedor do Óscar para melhor argumento em 1956, mas a maioria ficou sem trabalho.

Imagem promocional de "O Mundo a Seus Pés, realizado e interpretado por Orson Welles"

Imagem promocional de "O Mundo a Seus Pés, realizado e interpretado por Orson Welles"

Timeline, Década 1940-1949

1940

  • Os cinco maiores estúdios de Hollywood concordam em desistir da “venda cega”, prática que forçava os exibidores a comprar filmes que não tinham previamente visionado, e diminuir o aluguer em bloco para cinco filmes. Este acordo leva a que os exibidores possam recusar filmes B e como consequência os estúdios vão reduzindo aos poucos a produção deste tipo de filmes para se concentrarem na produção de filmes de qualidade.
  • Inicia-se a produção de pequenos filmes musicais (soundies) que eram vistos em máquinas semelhantes a jukeboxes. Este tipo de filmes é produzido até 1946.
  • Rebecca, o primeiro filme americano de Alfred Hitchcock, é um sucesso comercial e de critica.
  • Após a invasão nazi, o realizador francês Jean Renoir parte para Lisboa e depois para os Estados Unidos, ai permanecendo até ao final da guerra.
  • Após uma produção regular de cerca de 15 filmes por ano durante a década de 20, o Brasil produz apenas um filme em 1940. O declínio deve-se a uma prolongada crise económica.

1941

  • À medida que a entrada dos Estados Unidos na 2ª Grande Guerra se torna cada vez mais evidente, os filmes de guerra tornam-se populares junto do público.
  • Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, cerca de 40 mil dos 240 mil trabalhadores da indústria cinematográfica entram para o exército.
  • O produtor Samuel Goldwyn dá por terminada a sua ligação com a United Artists e começa a distribuir os seus filmes através da RKO Radio Pictures.
  • Orson Welles estreia O Mundo a Seus Pés. Aclamado pelos críticos, o filme é um falhanço comercial principalmente devido à tentativa do magnata de imprensa William Hearst, no qual o filme se baseia, em impedir a sua distribuição.
  • Ava Garner estreia-se no filme Sol de Outono, mas apenas viria a tornar-se uma estrela anos mais tarde.

1942

  • Estreia de Casablanca, um dos mais populares filmes de todos os tempos e que viria a ganhar 3 Óscares no ano seguinte (melhor filme, melhor realizador e melhor argumento).
  • O governo americano cria o Gabinete de Informação de Guerra (Office of War Information) para coordenar a propaganda de guerra e os laços com Hollywood. Uma das suas práticas é a censura cinematográfica.
  • Devido à guerra, Hollywood sofre restrições que vão afectar a rodagem e a estreia de filmes.
  • Com o recrutamento de muitos das suas estrelas masculinas, Hollywood sente dificuldade em encontrar protagonistas para os seus filmes.
  • Na Alemanha, o governo nazi nacionaliza a indústria cinematográfica.

1943

  • Criada a Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, actualmente conhecida como Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, responsável pelos prémios Globo de Ouro, instituídos em 1944.
  • Frank Capra estreia Prelude to War, o primeiro da série de documentários de guerra que realizou para o exército americano.
  • Jane Russell estreia-se em A Terra dos Homens Perdidos, produzido e realizado por Howard Hughes. O filme, que realça os volumosos seios da actriz, esteve na base de uma árdua batalha entre o milionário e o gabinete de censura, o que dificultou a distribuição do filme.

1944

  • Lauren Bacall estreia-se em Ter ou Não Ter, ao lado do que viria a ser seu marido, Humphrey Bogard.
  • Pela primeira vez, a cerimónia de entrega dos Óscares deixa de ser uma festa privada e transforma-se num espectáculo de variedades e é transmitida pela rádio.
  • É fundada, na Grã-Bretanha, a produtora e distribuidora Eagle-Lion Films.
  • Pela primeira vez é transmitido um anúncio na televisão a um filme (Papá por Acaso).
  • Alexander Korda vende a empresa London Films à United Artists.
  • Entre 1944 e 1973, a produção cinematográfica espanhola é controlada pelo ministro da Cultura do General Franco, Luis Carrero Blanco.

1945

  • No dia 15 de Agosto, os estúdios de Hollywood param a produção para celebrar o fim da II Guerra Mundial. No fim desse mês, terminam as restrições à distribuição do stock de película.

1946

  • Hollywood tem o seu ano mais rentável de sempre, sustentado por um recorde de espectadores.
  • A Universal funde-se com a International Pictures e passa a chamar-se Universal-International.
  • Com o pós-guerra, a produção cinematográfica japonesa começa a recuperar e o número de espectadores duplica em relação aos anos que antecederam a guerra.
  • É criado, em França, o Centre Nacional du Cinema Françoise, para regular a indústria cinematográfica.
  • Tem lugar a primeira edição do Festival de Cinema de Cannes.

1947

  • O Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas inicia as suas investigações sobre alegados comunistas em Hollywood.
  • David O. Selznick termina a sua associação com a United Artists e começa a distribuir os seus próprios filmes.
  • Elia Kazan inaugura, em Nova Iorque, o Actor's Studio. Sob a direcção artística de Lee Strasberg, a escola de actores torna-se conhecida pela sua técnica de interpretação (o método), e dela saem nomes como Marlon Brando, James Dean e Paul Newman.
  • A Grã-Bretanha institui limites à importação de filmes americanos. Os produtores de Hollywood retaliam e os limites são levantados um ano depois.
  • Com o pós-guerra, aumenta a produção de filmes fatalistas e de moral duvidosa, género que ficaria conhecido como film noir.

1948

  • O Supremo Tribunal americano declara os cinco grandes estúdios de Hollywood culpados de práticas monopolistas e ordena que vendam as salas de cinema que detêm.
  • "Os Dez de Hollywood" são acusados de desrespeito quando se recusam a cooperar com o Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas e são sentenciados a um ano de prisão, apagarem uma multa de mil dólares e entram para a lista negra de Hollywood.
  • Como resultado de uma acção em tribunal, a Eastman Kodak é obrigada a abrir mão das patentes que detêm sobre o processamento de cor.
  • O realizador italiano Vittorio de Sica estreia o clássico O Ladrão de Bicicletas.
  • A Grã-Bretanha, à semelhança de outros países europeus, impõe limites à quantidade de dinheiro que as empresas americanas podem retirar do país. Esta medida encoraja os estúdios americanos a investir parte dos seus lucros na produção cinematográfica local.

1949

  • O espírito anti-comunista invade Hollywood com várias comissões a controlarem e a influenciar o dia-a-dia da indústria cinematográfica.
  • Uma vez mais, os tribunais ordenam os estúdios a alienarem as salas de cinema que detêm.
  • Marilyn Monroe posa nua para um calendário e estreia-se no último filme em que os irmãos Marx contracenam juntos (Louco por Mulheres).
  • Elia Kazan estreia Herança Cruel, um dos vários filmes de 1949 que abordam questões raciais.
  • Para encorajar a produção nacional, o governo britânico cria o National Film Finance Corporation, que empresta dinheiro à industria cinematográfica.
  • O estúdio inglês Ealing começa a ser conhecido pelas suas comédias, entre elas Oito Vidas por Um Título, no qual Alec Guiness interpreta seis personagens.
  • A Alemanha é oficialmente dividida, dando origem a duas indústrias cinematográficas distintas.
  • Após muitos anos no estrangeiro, o realizador brasileiro Alberto Cavalcanti regressa ao seu país, onde vai dirigir a produtora Vera Cruz Filmes.

Texto de Rui Chambel

Historia do Cinema: 1930-1939

O studio system

Os estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer

Os estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer

Os estúdios independentes que, na década anterior, tinham lutado contra o domínio da Motion Pictures Patents Company eram agora quem dominava a industria cinematográfica em Hollywood. Metro-Goldwyn-Mayer, 20th Century-Fox, Warner Bros., Universal Pictures, Paramount Pictures e, numa menor dimensão, Columbia PIctures e RKO Radio Pictures controlavam a maioria das salas de cinema dos Estados Unidos e as centenas de filmes que os “alimentavam”.

A década é também marcada pela utilização do som na sétima arte e que viria a transformar a indústria: os actores começaram a dar mais atenção à voz, os estúdios procuraram no teatro actores mais expressivos, os escritores foram obrigados a definir as personagens através de palavras e com o film dos filmes mudos, os escritores de cartões ficaram no desemprego. Mas o som permitiu também o nascimento de um novo género: o musical, aparecendo, então, estrelas como Maurice Chevalier, Fred Astaire e Ginger Rogers.

A década de 1930 é também marcada pela generalização dos filmes a cores. Em desenvolvimento desde a década de 1890, a tecnologia atingiu um momento fulcral com o desenvolvimento do processo de três cores, utilizado pela primeira vez na curta-metragem de animação Flowers and Trees (1933), de Walt Disney, e na longa-metragem A Feira da Vaidade (1935). No entanto, o melhor exemplo da tecnologia é o épico E Tudo o Vento Levou (1939), vencedor de oito Óscares, num ano que é considerado como o melhor da história da sétima arte.

Em França, o trabalho de realizadores como Jean Renoir, Jean Vigo, René Clair e Marcel Carné reflectem uma visão negra que antecipa a guerra que se avizinhava. Antes da guerra, a Alemanha produzia mais de 200 filmes por ano, onde se destacavam os trabalhos de Fritz Lang e G.B.Pabst. Após a ascensão de Adolph Hitler, em 1933, a industria cinematográfica alemã passa a ser controlada pelo Ministro da Propaganda, Joseph Goebbles, dando origem a verdadeiras homenagens ao fascismo, como o filme de Leni Riefenstahl O Triunfo da Vontade. Em Espanha, o cinema passa a ser controlado pela Companhia Industrial del Film Espanol e com a ascensão do ditador Franco no final da década, os filmes passa a ser controlados pelo Estado. Na União Soviética, a produção é dominada por dramas, adaptações literárias e acontecimentos históricos, destacando-se o trabalho do realizador Sergei Eisenstein.

Cartaz de "E Tudo o Vento Levou"

Cartaz de "E Tudo o Vento Levou"

Timeline, Década de 1930-1939

1930

  • Estreia Anna Christie, o primeiro filme sonoro da actriz Greta Garbo. O slogan publicitário do filme era: “Garbo, fala!”.
  • The Big House, realizado por George Hill, é o primeiro melodrama passado numa prisão.
  • O Presidente da 20th Century Fox, William Fox, é forçado a vender o estúdio por 18 milhões de dólares, depois de ter perdido a sua fortuna no crash da bolsa em 1929.
  • A Itália estreia o seu primeiro filme sonoro, La Canzone dell’ Amore, realizado por Gennaro Righelli.
  • All Quiet on the Western Front é banido na Alemanha devido à sua mensagem pacifista.
  • No inicio de década, os estúdios Paramount Pictures, Warner Bros. e 20th Century Fox são os donos da maioria das salas de cinema dos Estados Unidos.
  • Nasce o primeiro jornal diário dedicado exclusivamente à indústria cinematográfica: The Hollywood Reporter, ainda hoje publicado.
  • Em Março de 1930, o Código de Produção é adoptado pela indústria americana para reger a filmagem de cenas que abordem sexo, religião, violência e outros assuntos sensíveis.

1931

  • Devido à grande depressão, o número médio de espectadores diminui nos Estados Unidos, de 90 milhões em 1930 para 60 milhões em 1933. Os estúdios passam por tempos difíceis e as salas de cinema para atrair mais espectadores recorrem a expedientes como as secções duplas.
  • A RKO Radio Pictures adquire a empresa francesa Pathé.
  • Os estúdios americanos, na tentativa de impedir o constante assédio às suas estrelas entre si, acordam em limitar essa prática.
  • A Universal Pictures estreia Dracula e Frankenstein, interpretados por Bela Lugosi e Boris Karloff, respectivamente, e inicia o seu famoso ciclo de filmes de terror.
  • A Warner Bros. inventa o filme de gangsters com a produção de O Pequeno César e O Inimigo Público.
  • O realizador francês Jean Renoir estreia La Chienne, considerado a sua priemira grande obra, mas que foi um fracasso junto do público.
  • A Índia e o Japão produzem os seus primeiros filmes sonoros:** Alam Ara** e Madamu to Nyobo, respectivamente.
  • O realizador alemão Fritz Lang estreia filme M-Matou.

1932

  • A Paramount deixa de ser dona dos estúdios Astoria em Nova Iorque. Os estúdios passam a ser um centro de produção independente.
  • Com receio da concorrência, os exibidores pretendem que os estúdios impeçam as estrelas de cinema de aparecerem na rádio; alguns estúdios aceitam temporariamente o pedido.
  • A Walt Disney estreia o primeiro desenho animado a cores, Flowers and Trees.
  • A Metro-Goldwyn-Mayer contrata Jean Harlon, que viria a tornar-se uma das grandes estrelas do estúdio, e o escritor William Faulkner, que viria a ganhar o Prémio Nobel.
  • A actriz Shirley Temple faz a sua estreia no cinema com apenas três anos de idade.
  • A Kodak introduz no mercado o filme de 8mm, destinado a realizadores amadores.
  • Alexander Korda funda, em Inglaterra, a London Films.
  • O filme do realizador soviético Sergei Eisenstein Que Viva Mexico! é suspenso devido à falta de apoio financeiro do autor Upton Sinclair.
  • O filme L’ Armata Azzurra, um tributo à força área de Mussolini, é o primeiro filme de propaganda italiano.
  • O Egipto estreia o seu primeiro filme sonoro, Inshudat el Fuad.
  • O psicólogo alemão Rudolf Arnheim publica “Film as Art”, trabalho teórico sobre o formalismo cinematográfico.

1933

  • O governo americano permite que os grandes estúdios controlem a produção, distribuição e exibição de filmes, tornando-se verdadeiros monopólios.
  • A Paramount Publix e a RKO, detentoras da Paramount Pictures e da RKO Pictures, respectivamente, declaram falência.
  • Fred Astaire e Ginger Rogers surgem juntos pela primeira vez no filme Voando Para o Rio de Janeiro.
  • O primeiro drive-in é inaugurado em New Jersey.
  • Na Alemanha, os nazis assumem controlo da indústria cinematográfica e forçam os judeus a abandonar os seus postos de trabalho. Os estúdios de Hollywood acedem a despedir os judeus que trabalham nos seus escritórios alemães.
  • O filme do produtor Alexander Korda The Private Life of Henry VII é um marco de qualidade na história do cinema inglês.
  • Hedy Lamarr ganha notoriedade internacional ao aparecer nua no filme checo Extase.

1934

  • O Código de Produção começa a ser rigidamente aplicado e assim se manterá até meados da década de 60.
  • O responsável da Metro-Goldwyn-Mayer, Louis B. Mayer, utiliza o serviço de notícias (newsreel) do estúdio contra o candidato a Governador da Califórnia Upton Sinclair , que acabaria por perder as eleições.
  • A Columbia Pictures estreia Woman Haters, a primeira das 190 comédias interpretadas pelos Três Estarolas.
  • O realizador francês Jean Vigo morre aos 29 anos vítima de leucemia. Neste mesmo ano estreia a sua obra-prima, A Atalante.
  • A Warner Bros. fecha o seu escritório de distribuição em Berlim, em reacção à política anti-semita do governo Nazi Alemão.

1935

  • Os estúdios de Hollywood começam a recuperar financeiramente, depois dos difíceis anos da Grande Depressão.
  • A fusão entre a Twentieth Century Pictures e a Fox Film Corporation leva à criação da 20th Century Fox.
  • É criada a Republic Pictures, uma das mais famosas produtoras de filmes B.
  • David O. Selznick abandona a Metro-Goldwyn-Mayer e torna-se num produtor independente.
  • Estreia o primeiro filme a utilizar o sistema de 3 cores da Technicolor, Becky Sharp.
  • É criado, em Roma, a escola de cinema Centro Sperimentale di Cinematografia.
  • Leni Riefenstahl realiza o filme de propaganda nazi O Triunfo da Vontade.
  • Em Inglaterra, J. Arthur Rank começa a construir o seu império cinematográfico, ganhando domínio em todas vertentes da indústria cinematográfica.

1936

  • Carl Laemmle, fundador da Universal Films, vende o estúdio a um grupo de investidores por pouco mais de 5 milhões de dólares.
  • Com o apoio da Pathé, é fundado um novo estúdio em Hollywood: Grand National.
  • A Pionner Pictures funde-se com a Selznick Internacional.
  • David O. Selznick adquire os direitos cinematográficos da obra de Margaret Mitchell “E Tudo o Vento Levou”.
  • Numa encíclica, o Papa Pio XI denuncia os filmes indecentes.
  • Aos 16 anos, Lana Turner é descoberta, quando trabalhava numa loja, pelo editor do jornal Hollywood Reporter, que a recomenda ao realizador Mervyn Leroy.
  • O filme de estreia da cantora Deanna Durbin, de apenas 15 anos, é um sucesso comercial e salva a Universal da falência.
  • A personagem Bugs Bunny é criada por um grupo de desenhadores da Warner Bros.
  • É criada, em Paris, a Cinemateca Francesa.

1937

  • A 20th Century Fox é o primeiro estúdio a usar a rádio para promover os seus filmes.
  • A Branca de Neve e os Sete Anões, da Disney, é a primeira longa-metragem de animação.
  • A invasão japonesa de Shangai (China), obriga a grande comunidade cinematográfica da cidade a emigrar para Hong-Kong e Taiwan. Os japoneses utilizam os estúdios ocupados para produzir filmes de propaganda.
  • Saint Tukaram é o primeiro filme indiano a vencer um prémio internacional, ao ser premiado no Festival de Veneza deste ano.

1938

  • O realizador inglês Alfred Hitchcock aceita realizar o seu primeiro filme americano, produzido por David O. Selznick.
  • O realizador soviético Mark Donskoy estreia o primeiro filme da Trilogia de Maxim Gorky (1938-1940).
  • A Inglaterra aumenta a quota de exibição de filmes ingleses e encoraja o investimento americano na produção inglesa.

1939

  • Os estúdios americanos têm o seu melhor ano, com um vasto conjunto de filmes aclamados artisticamente.
  • O estúdio Grand National entra em processo de falência.
  • Estreia de E Tudo o Vento Levou, um dos maiores sucessos comerciais da história da sétima arte e um dos mais aclamados pela crítica.
  • Hattie McDaniel vence o Óscar na categoria de melhor actriz secundária, pelo filme E Tudo o Vento Levou, e torna-se a primeira pessoa negra a vencer um Óscar.
  • Em consequência do início da II Grande Guerra, as salas de cinema em Inglaterra fecham temporariamente as suas portas.
  • A Regra do Jogo, a obra-prima do realizador francês Jean Renoir, é um fracasso comercial aquando da sua estreia. #Historia do

Texto de Rui Chambel

Historia do Cinema: 1920-1929

A era do sonoro

"O Cantor de Jazz", a primeira longa-metragem sonora

"O Cantor de Jazz", a primeira longa-metragem sonora

A década de 1920 é marcada pelo espírito do pós-guerra e a diversidade das produções cinematográficas são reflexo disso mesmo. Nos Estados Unidos, os talentos de Charlie Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd dominam na comédia, Cecil B. De Mille continua a realizar melodramas carregados de sensualidade e os primeiros filmes de gangsters e documentários fazem a sua aparição. Na Europa, as experiências vanguardistas de Man Ray e Luis Bunuel marcam a França do pós-guerra e a Alemanha vive, na primeira metade da década, a era de ouro do expressionismo alemão. Após anos de filmes de propaganda, o cinema soviético (controlado pelo Estado) torna-se num centro criativo, cujo expoente máximo são as obras de Sergei Eisentein. Por sua vez, a Índia vive uma década extremamente produtiva, produzindo cerca de 100 filmes por ano.

Em Hollywood, a vida da cidade e da industria cinematográfica é dominada pelos escândalos das estrelas de cinema que, à semelhança dos personagens que interpretam no grande ecrã, vivem histórias pessoais rocambolescas: o comediante Fatty Arbuckle abandona a sua carreira cinematográfica devido às suspeitas de assassinato da actriz Virginia Rappe; em 1918, as salas de cinema recusam-se a exibir os filmes de Francis X. Bushman, quando se tornam publicas as suas aventuras extra conjugais; o ídolo da juventude Wallace Reid morre, vitima de drogas; a actriz exótica Pola Negri vê a sua popularidade aumentar quando o seu romance com o actor Rudolph Valentino se torna público.

O final da década viria a ser marcada por um dos mais importantes acontecimentos da história do cinema: a exibição do primeiro filme sonoro. Muito embora as experiências de Thomas Edison, foi a pequena empresa Vitaphone (criada pela Warner Bros. e pela Wester Electric) a desenvolver um sistema eficaz e a produzir as primeiras curtas-metragens sonoras em 1926 e um ano mais tarde a primeira longa-metragem sonora: O Cantor de Jazz, realizada por Alan Crosland e protagonizado por Al Jolson.

Os filmes sonoros foram um sucesso imediato e no final da década, perto de metade das salas de cinema americanas estavam preparadas para os exibir. Muito embora o seu sucesso, o sonoro levou à ruína de alguns actores: uns não tinham a voz mais indicada para o novo registo cinematográfico, outros, como Mary Pickford, não conseguiram fugir à imagem que construíram durante a era do mudo e retiraram-se.

A década não terminaria sem mais um acontecimento importante e que iria influenciar a economia mundial, incluindo a indústria cinematográfica: a queda da bolsa de Nova Iorque em Outubro de 1929 e o início da depressão económica.

"O Couraçado de Potemkin", do realizador Sergei Eisentein

"O Couraçado de Potemkin", do realizador Sergei Eisentein

Timeline, Década 1920 - 1929

1920

  • Executivos de Hollywood e políticos criam o Comité de Americanização para encorajar o sentimento patriótico em filmes.
  • Existem cerca de 20 mil salas de cinema a operar nos Estados Unidos.
  • Produtores independentes americanos tentam controlar a distribuição de filmes através da aquisição de novas salas de cinema.
  • A exibição do filme O Gabinete do Dr. Caligari dá inicio ao Expressionismo Alemão, que teve como maiores exemplos as obras dos realizadores F.W.Murnau, Robert Wiene e Fritz Lang.
  • O Brasíla assiste aos primeiros filmes com som sincronizado, que utilizavam um disco que tocava ao mesmo tempo que era exibido o filme.
  • A Polónia assiste à construção do primeiro estúdio cinematográfico do país, em Varsóvia.

1921

  • O estúdio estatal Alemão UFA assina um acordo com a Famous Players-Lasky Corporation para a exibição dos seus filmes nos Estados Unidos.
  • Durante a década, muitos dos actores e realizadores suecos emigram para os Estados Unidos, tais como Greta Garbo, Mauritz Stiller e Victor Sjorstrom.

1922

  • The Toll of the Sea é a primeira longa-metragem a ser filmada no sistema de duas cores da Technicolor.
  • O explorador Robert Flaherty realiza o primeiro documentário do mundo, Nanuk, o Esquimó, sobre o dia a dia de uma família de esquimós.
  • Em Itália, a produção nacional diminui devido à invasão de filmes americanos e alemães.
  • A China cria a primeira produtora do país, controlada pelo Estado.

1923

  • A exibição do filme A Caravana Gloriosa populariza os filmes de cowboys.
  • O filme de Cecil B. De Mille Os Dez Mandamentos, orçado em 1 milhão de dólares, torna-se num enorme sucesso de bilheteira.
  • A Eastman Kodak introduz no mercado a película de 16 milímetros, destinada a amadores, mas o formato torna-se popular nos mercados industrial e educacional.
  • As cidades japonesas de Tóquio e Yokohama são atingidas por um terramoto, destruindo a maioria dos estúdios e salas de cinema do país que ai se concentravam.
  • Um promotor imobiliário constrói a palavra Hollywoodland nas colinas de Los Angeles. Mais tarde a palavra é encurtada, ficando como um dos mais lendários símbolos da sétima arte.
  • Durante os 10 anos seguintes, o Japão tem uma das mais produtivas cinematografias mundiais.
  • O estado soviético cria a unidade criativa Proletino para produzir filmes políticos.

1924

  • Algumas salas de cinema nos Estados Unidos começam a programar secções duplas.
  • São criados os estúdios Gainsborough, em Inglaterra, onde Alfred Hitchcock viria a realizar os seus primeiros filmes.
  • Começa a nascer a Poverty Row, uma zona de Hollywood onde ficam instalados os escritórios de pequenas produtoras, entre elas a Columbia Pictures.
  • A Metro-Goldwyn Pictures é criada a partir da fusão entre a Metro Pictures, Goldwyn Pictures e a Louis B. Mayer Productions.
  • A produtora Famous Players-Lasky começa a ser ofuscada pela sua distribuidora Paramount, que ganha cada vez mais poder com as salas de cinema que vai adquirindo. 1925
  • Os dinossauros fazem a sua primeira aparição nos ecrãs de cinema, no filme O Mundo Perdido, cujos efeitos especiais são criados por Willis O’Brien, que mais tarde seria o responsável pelos efeitos do filme King Kong.
  • Por causa de um concurso de uma revista de cinema, a Metro-Goldwyn-Mayer muda o nome da actriz Lucille Le Seur para Joan Crawford.
  • A jornalista Louella Parsons inicia a sua famosa coluna de opinião.
  • A Warner Bros. lança uma estação de radio, adquire a empresa Vitagraph e junta-se à Western Electric para desenvolver um sistema de som para filmes.
  • Em O Couraçado de Potemkin, o realizador Sergei Eisenstein introduz a técnica de montagem.
  • A produção cinematográfica checa reacende-se e ganha fama internacional.

1926

  • O actor Rudolph Valentino morre aos 31 anos. Os estúdios de Hollywood encerram para o funeral, que é cenário de inflamadas reações dos fãs do actor.
  • Don Juan é o primeiro filme a utilizar o sistema sonoro Vitaphone, apenas com efeitos sonoros e música.

1927

  • A 6 de outubro, estreia a primeira longa-metragem sonora (O Cantor de Jazz), protagonizada por Al Jolson. A reacção do público é extremamente positiva.
  • É criada, nos Estados Unidos, a Academia das Artes e Ciências das Imagens em Movimento, que atribuirá, em 1929, os primeiros prémios de excelência da industria cinematográfica, conhecidos por Óscares.
  • O realizador Frank Capra é contratado pela Columbia Pictures, sendo de extrema importância na ascensão da produtora como um dos principais estúdios de Hollywood.
  • É inaugurada, em Hollywood, a famosa sala de cinema The Chinese Theater e em Nova Iorque abre a maior sala de cinema com 6.214 lugares.
  • Os estúdios de Hollywood impõem regras de conduta a si próprios a proibir a exibição de escravatura branca, romance inter-racial e o uso de drogas.
  • A Famous Players-Lasky Company torna-se nos estúdios Paramount.
  • O Egipto produz a sua primeira longa-metragem (Laila).
  • A produção cinematográfica norueguesa ganha reconhecimento com o filme Troll-elgen.

1928

  • A Warner Bros. estreia o primeiro filme totalmente sonoro e é responsável por todos os filmes sonoros produzidos neste ano (10).
  • Utilizando um sistema de som melhorado, Walt Disney e Ub Iwerks produzem o cartoon Steamboat Willie, dando a conhecer a personagem do Rato Mickey, à qual Disney fornece a sua própria voz.
  • Com a estreia do seu primeiro filme sonoro (Amores de uma Actriz), a actriz Pola Negri é forçada a reformar-se uma vez que o seu sotaque polaco não é perceptível pelo público.
  • A Paramount anuncia que a partir de 1928 apenas produz filmes sonoros.
  • Pela primeira vez é utilizado um trailer com som para anúnciar o filme Noites de Nova Iorque.
  • É criado o estúdio RKO Radio Pictures.
  • Estreia, em Paris, o filme Um Cão Andaluz de Luis Buñuel. Muito embora as suas imagens perturbantes, o filme tem boa aceitação pelo público.
  • Os realizadores soviéticos Eisenstein, Alexandrov e Pudokin apresentam a teoria sobre o cinema sonoro, intitulado “O Futuro do Filme Sonoro”.
  • O governo soviético critica o realizador Eisenstein pelo seu filme Outubro e decide que os filmes soviéticos devem ser realizados de modo a serem percebidos pelas massas.

1929

  • A Academia das Artes e Ciências Cinematográficas realiza a primeira cerimónia de entrega dos Óscares.
  • Os Irmãos Marx estreiam o seu primeiro filme, Os Quatro Cocos, e King Vidor realiza o primeiro filme sonoro apenas com actores negros.
  • A Warner Bros. adquire várias editoras de música, com o objectivo de utilizar as músicas nos seus filmes.
  • Comediantes, da Warner Bros., é o primeiro musical sonoro a cores.
  • Vários países europeus, entre eles a Inglaterra, França, Austria e Hungria, impõem quotas à importação de filmes estrangeiros.
  • A legislação italiana obriga a que todos os filmes sejam exibidos em italiano.
  • O número de espectadores triplica em França entre o fim da I Guerra Mundial e 1929.
  • Alfred Hitchcock realiza Chantagem, o primeiro filme sonoro inglês.
  • A voz do actor John Gilbert é ridicularizada pelo público, aquando da exibição do seu primeiro filme sonoro (His Glorious Night).

Texto de Rui Chambel

RKO Radio Pictures

Logotipo RKO

A RKO Radio Pictures foi criada em 1928 pela Radio Corporation of America (RCA), cujo sistema de som em película (Photophone) tinha sido preterido pelo da rival Western Electric (Vitaphone) pelos estúdios de Hollywood. Como resposta à Vitaphone, a RCA adquiriu a rede de salas de cinema Keith-Albee-Orpheum e a produtora Film Booking Office of America (FBO), criando a RKO com o objectivo de produzir apenas filmes sonoros.

Os primeiros anos da empresa, dominados pelos musicais e comédias cheias de diálogos, foram de algum sucesso, mas os realizadores que trabalhavam para o estúdio não estavam satisfeitos com as condições existentes e, em 1931, a RKO adquiriu a Pathé americana, cujos estúdios e rede de distribuição permitiu aumentar a capacidade de produção e distribuição da RKO. Nesse mesmo ano David O. Selznick torna-se o responsável pela produção do estúdio e cria uma unidade em que produtores independentes são contratados para produzir um determinado número de filmes, sem qualquer interferência do estúdio, mas em que este dividia os custos de produção em troca dos direitos de distribuição. A estratégia de Selznick passava também por realizar grandes estreias das suas maiores produções e, assim, foi responsável pela construção da maior sala de cinema do mundo, o Radio City Musical Hall, em Nova Iorque. A sala possibilitava a estreia das maiores produções do estúdio, rodeados de grande publicidade e notoriedade. Infelizmente a estratégia revelou-se bastante cara: quer para o estúdio, que fechou o ano de 1932 com 10 milhões de dólares de prejuízo, quer para Selznick, que foi despedido.

Merian C. Cooper, um antigo colaborador de Selznick, torna-se o novo responsável pela produção da RKO e o estúdio passa a apostar na produção de filmes de menor orçamento. No entanto, um dos primeiros filmes a sair do estúdio nesta altura é King Kong (realizado pelo próprio Cooper), que estreia no Radio City Music Hall rodeado de grande publicidade e torna-se um dos grandes sucessos do estúdio. Para além das suas próprias produções, a RKO distribuía ainda os filmes de Walt Disney (curtas e longas-metragens) e as produções de Samuel Goldwyn. Durante a década de 30, estão sob contracto do estúdio estrelas como Cary Grant, Irene Dunne, Douglas Fairbanks, Jr., Fred Astaire, Ginger Rogers, Katharine Hepburn, entre outros, e embora a RKO não tivesse os recursos financeiros dos restantes estúdios, os seus filmes eram conhecidos pelo seu estilo e desenho de produção.

No final da década de 1930 e já sob a orientação de George Schaefer, a RKO volta a apostar na qualidade e do estúdio saem filmes como As Duas Feras e O Mundo a Seus Pés, este considerado como o melhor filme de todos os tempos. Mas a política de filmes de prestigio não teve grande sucesso e, a partir de 1942 já sob o comando de Charles Korner, a RKO aposta em secções duplas e em filmes B. Após a morte de Korner, o seu sucessor, Dore Schary, reaviva algumas práticas de Selznick e volta a apostar em co-produções com produtores independentes, tais como: Do Céu Caiu uma Estrela, Os Melhores Anos das Nossas Vidas, Forte Apache, Os Dominadores, entre outros.

Ao contrário dos restantes estúdios de Hollywood, em que cada um tinha um género porque era conhecido, a RKO não era sinónimo de nenhum género específico. No entanto, é possível identificar a marca do estúdio num conjunto de filmes que marcaram a história do cinema durante esta década. Reflexo dos filmes de baixo orçamento que o estúdio produziu durante a década de 40, o film noir tornou-se num importante marco da RKO e os actores que estavam sob seu contracto tornaram-se os mais conhecidos do género: Robert Mitchum, Jane Russell, Robert Ryan, Audrey Totter, George Raft, entre outros.

Em 1948, o milionário Howard Hughes adquire parte do capital da RKO por pouco menos de 9 milhões de dólares e o estúdio, ao contrário do que seria de esperar, entra num período conturbado: para além de despedir 2/3 dos empregados do estúdio, as psicoses de Hughes fazem parar a produção durante seis meses, enquanto o milionário investiga o passado político dos restantes empregados. Uma vez retomada a produção, Hughes interferia nas filmagens e ordenava a rodagem de novas cenas sempre que considerava que os actores, em particulares as mulheres, não sobressaíam ou se a mensagem anticomunista não era suficientemente explicita.

A ordem do tribunal norte-americano em obrigar os estúdios de Hollywood a vender as suas salas de cinema, afectou também a RKO, que viu a sua frágil situação financeira piorar. Para agravar a situação ainda mais, Hughes dava mais atenção aos seus interesses aeronáuticos do que ao estúdio (o milionário detinha fábricas de aviões e era dono da transportadora aérea TWA) e foi alvo de diversos processos judiciais por má gestão. Aborrecido com estes fait-divers, Hughes acabou por comprar a maioria das acções da RKO por 24 milhões de dólares e, em 1954, tornou-se na primeira pessoa a ser dona de uma das majors de Hollywood. Seis meses depois, Hughes vende inesperadamente a RKO à empresa de pneus General Tire and Rubber Company por 25 milhões de dólares, mantendo apenas os direitos sobre os filmes que produziu pessoalmente.

O interesse da General Tire era, não tanto nos estúdios, mas nos filmes da RKO, já que as estações de televisão, inclusive as da General Tire, necessitavam de conteúdos para a sua programação. Sabendo disso, a General Tire logo vendeu os direitos dos cerca de 700 filmes da RKO por 15 milhões de dólares, cujo preço revelava a importância deste tipo de conteúdo. Este negócio permitiu que grande parte dos filmes da RKO, incluindo clássicos como O Mundo a Seus Pés e Do Céu Caiu Uma Estrela, passasse regularmente na televisão e os filmes fossem redescobertos pelo público.

A General Tire ainda tentou gerir o estúdio, mas grande parte da produção resumia-se a remakes de sucessos anteriores ou filmes B. Anos de má gestão levaram realizadores e produtores a perderem confiança no estúdio e Walt Disney e Samuel Goldwyn acabaram por abandonar o estúdio. Perante este cenário, a General Tire decide fechar a RKO em Janeiro de 1957 e vender os estúdios à produtora de televisão Desilu Productions, que em 1967 viria a ser comprada pela Paramount Pictures e os transformou na Paramount Television. Com o fecho da produção, os filmes ainda por estrear da RKO foram distribuídos, entre 1957 e 1959, por diversos estúdios, entre eles a Warner Bros., a Metro-Goldwyn-Mayer e a Universal Pictures, mas sempre mantendo a indicação de que os direitos de autor pertenciam à RKO.

O nome do estúdio permaneceu durante os anos, já que a RKO General era a dominação da empresa subsidiária da General Tyres para os meios de comunicação e que detinha uma cadeia de rádios. Em 1989, a General Tyres foi comprada pela alemã Continental Tire, que vendeu a RKO General à empresária Dina Merrill e ao seu marido, o produtor Ted Hartley. Os novos donos, que detêm todos os direitos sobre os logótipos, marcas, argumentos, histórias, remakes e sequelas dos filmes da RKO Radio Pictures, ressuscitam a produtora, produzindo remakes de sucessos antigos e peças de teatro. Embora ainda hoje se mantenha activa, a actual RKO Pictures é uma sombra dos seus tempos áureos, mas a sua história é parte integrante da sétima arte.

Texto de Rui Chambel
Foto: www.rko.com

Quem é Allen Smithee?

Allen Smithee é um pseudónimo utilizado por realizadores que desejavam ver o seu nome retirado de um filme. O nome, instituído pela Associação de Realizadores da América (Director Guild of America – DGA), apenas podia ser utilizado quando o realizador conseguia provar, perante a DGA, de que que tinha perdido o controlo criativo do filme, muitas vezes devido à interferência dos produtores. O realizador era obrigado a manter a razão da discórdia em segredo e a utilização do pseudónimo não podia ser utilizado para esconder falhanços comerciais de um filme.

O nome foi utilizado pela primeira vez no filme de 1969 A Morte de um Pistoleiro (foto), cujo primeiro realizador (Robert Totten) foi substituído por Don Siegel. Ambos os realizadores ficaram insatisfeitos com o resultado final e nem um nem outro quis o seu nome associado ao filme. O primeiro nome proposto para constar na ficha técnica foi Al Smith, mas já existia um realizador registado na DGA com esse nome, tendo sido decidido o nome Allen Smithee. Curiosamente, o filme revelou-se um sucesso, incluindo junto dos críticos que elogiaram o trabalho de Allen Smithee.

Em 1997, Joe Eszterhas pegou no nome e escreveu o filme An Allen Smithee Film, que conta a história de um realizador desiludido com um filme e procura retirar o seu nome da ficha técnica, mas não consegue porque o seu nome é… Allen Smithee. O filme revelou-se um verdadeiro fiasco e a má publicidade associada (ajudada pelo facto de o realizador Arthur Hiller ter o utilizado o pseudónimo Allen Smithee) levou a DGA a terminar a utilização do nome. A partir de então a Associação decide caso a caso o pseudónimo a utilizar, como foi o caso do filme Supernova (2000), em que o realizador Walter Hill utilizou o pseudónimo Thomas Lee.

Texto de Rui Chambel

Pancho Villa e o Cinema

O cinema está recheado de histórias incríveis e nenhum outro período é tão fértil como o do cinema mudo. Uma dessas histórias é a do revolucionário mexicano Pancho Villa, que assinou um contracto com a Mutual Film Corporation para a venda dos direitos cinematográficos da revolução mexicana.

No início do século XX, o México era liderado pelo presidente Porfirio Diaz, cuja governação oprimia o povo e levou à insurreição em 1910. Uma das facções revolucionárias era comandada pelo general Pancho Villa, que dominava o norte do país e a fronteira com os Estados Unidos. Como excelente estratega que era, Villa, cujo nome verdadeiro era José Doroteo Arango Arámbula, cedo se apercebeu da importância dos meios de comunicação e utilizou-os para promover a sua imagem, nomeadamente nos Estados Unidos. É neste contexto que Villa assina um contracto, em 1914, com a Mutual para a cedência dos direitos cinematográficos das suas acções militares, no valor de 25 mil dólares mais parte dos lucros do filme.

Na época, a popularidade do cinema nos Estados Unidos crescia a cada dia que passava e todos os filmes eram poucos para um público ávido de novidades cinematográficas. A par de melodramas e comédias, os newsreels com imagens de guerra eram também bastante populares e, neste contexto, o contracto entre a empresa cinematográfica americana e o revolucionário mexicano surge naturalmente.

Ao longo dos anos, muitas histórias têm sido escritas sobre o contracto, nomeadamente sobre as suas “estranhas” cláusulas. Uma delas supostamente referiria que as batalhas apenas poderiam decorrer entre as 9h da manhã e as 16h da tarde, uma vez que era o período ideal para se filmar. Mais, seria o operador de câmara que, ao gritar “acção!”, daria início aos ataques de Villa. Outra história que chegou até aos nossos dias é a da Mutual ter “vestido” Villa e os seus homens com guarda-roupa de filmes, já que os trajes dos mexicanos não tinham impacto cinematográfico suficiente. Estas histórias são isso mesmo e o único exemplar existente do contracto (que se encontra num museu no México) nada refere sobre estas cláusulas.

O que se sabe verdadeiramente é que as condições de filmagem não foram fáceis e o actor e realizador Raoul Walsh (A Pista dos Gigantes), que a Mutual enviou para o México, viu-se obrigado a encenar as cenas de batalha, utilizando os próprios guerreiros de Villa. No entanto, nem assim a Mutual ficou muito entusiasmada com as imagens que chegavam do México. Uma vez que as imagens não eram muito diferentes do que as conseguidas noutras guerras sem contrato, a empresa alterou a sua estratégia e decidiu produzir um filme de ficção sobre a vida de Pancho Villa (The Life of General Villa) e onde foram incorporadas as imagens já filmadas. Com as novas novas indicações da Mutual, Walsh regressou a Los Angeles, onde completou o filme com cenas rodadas em estúdio e interpretou um jovem Pancho Villa.

The Life of General Villa, que está dado como perdido, estreou em Nova Iorque no dia 14 de Maio de 1914 e foi bem recebido, quer pela crítica, quer pelo público. No entanto, é referido como um banal melodrama, que vale mais pela sua perspectiva histórica do que pela sua mais-valia artística.

Texto de Rui Chambel
Foto: Britannica.com

Os 4 Espiões (1936)

Os 4 Espiões é um dos menos conhecidos filmes do realizador Alfred Hitchcock, mas é também um dos seus mais estranhos. O filme tem por base uma peça de Campbell Dixon e as obras de Somerset Maugham The Traitor e The Hairless Mexican, dois dos setes livros que contam as aventuras do agente secreto Ashenden. Maugham era, ele próprio, um espião ao serviço de Sua Majestade e as aventuras de Ashenden são muitas vezes o relato da vida do autor, a ponto de Winston Churchill ter, supostamente, recomendado que o autor queimasse os livros porque violavam o segredo de estado.

Para o papel de herói, Hitchcock escolheu o actor de teatro Sir John Gielgud, que, ao contrário de colegas como Laurence Olivier e Ralph Richardson, não tinha qualquer interesse na sétima arte. Foi apenas com o argumento de que Ashenden era um Hamlet moderno, que Hitchcock conseguiu que o actor participasse no filme. Gielgud acabou por detestar o seu personagem devido à sua ambiguidade e pelo facto de Hitchcock ter tornado o vilão, interpretado por Peter Lorre, mais interessante que o herói. Embora admirasse o estilo de realização de Hitchcock, Gielgud ressentiu-se pelo facto do realizador dar demasiada atenção, à frente e por detrás das câmaras, a Madeleine Carroll. A actriz interpreta, pela primeira vez, o que viria a ser a típica heroina de Hitchcock: uma loira fria, mas que aos poucos vai revelando os seus sentimentos. Os 4 Espiões foi a segunda colaboração de Carroll com o realizador e a actriz partiu pouco depois para Hollywood onde teve uma breve carreira.

Como referido, Gielgud não gostou que o vilão fosse mais interessante que o herói e isso muito se deve ao excelente trabalho de Peter Lorre. O actor alemão tornou-se uma estrela internacional ao interpretar um assassino de crianças em Matou!, de Fritz Lang, tendo abandonado a sua pátria em 1933, tal como grande parte da comunidade cinematográfica alemã. De acordo com Gielgud, Lorre era um viciado em morfina e um especialista em “roubar cenas”. O seu estilo de interpretação chocava com a descrição e o método de Gielgud e interpretou o seu papel de tal forma que o vilão representa o lado negro do herói.

Embora os seus filmes nunca tenham tido um cariz marcadamente político, Os 4 Espiões é o terceiro filme de Hitchcock em que o vilão é identificadamente alemão. Este facto torna-se ainda mais curioso tendo em conta que Hitler era, nesta altura, visto como algo tolerável em Inglaterra e o nazismo alemão era bem visto em alguns sectores da sociedade inglesa. Hitchcock, tal como muitos outros artistas e ao contrário dos políticos, antecipou os tempos de guerra que se seguiriam.

Embora tenha tido algum sucesso junto do público, Os 4 Espiões não foi muito bem recebido junto da crítica, já que questionava o puritanismo e o heroísmo da guerra. A ambiguidade do herói e a descrição que Gielgud coloca na sua personagem contribuem também para o menor sucesso do filme. No entanto, Os 4 Espiões, estreado em Portugal a 7 de Janeiro de 1937, não deixa de ser um bom exemplo da cinematografia de Alfred Hitchcock, com diálogos inteligentes, cenas bem construídas e uma interpretação excelente de Peter Lorre. Como curiosidade final, refira-se que Os 4 Espiões é o único filme de Hitchcock em que o realizador não faz as suas famosas aparições em frente das câmaras.

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Secret Agent
Gaumont British Picture. Grã-Bertanha, 1936, 86 min., thriller.
Realizador: Alfred Hitchcock.
Argumento: Alma Reville, Charles Bennett , Ian Hay, Jesse Lasky Jr., baseado nos livros de Somerset Maugham e numa peça de Campbell Bennett.
Actores: John Gielgud, Peter Lorre, Madeleine Carroll, Robert Young, Percy Marmont, Florence Kahn

Durante a I Grande Guerra Mundial, um escritor de sucesso finge a sua morte e é lhe dado uma nova identidade pelos serviços secretos, que o enviam para a Suíça numa missão onde é acompanhado por uma esposa falsa e uma assassínio.

Texto de Rui Chambel
Foto: Dr. Macro

O Dia em que a Terra Parou (1951)

O filme O Dia em que a Terra Parou nasceu da história Farewell to the Master que Harry Bates publicou em 1940 na então conhecida revista de ficção científica Astounding Science Fiction. Numa altura em que a ficção-científica era levada pouco a sério (até ai os melhores exemplos do género eram Metropolis, Things to Come e algumas séries para as matines de sábado como a do Flash Gordon), A 20th Century Fox interessou-se pela história e adquiriu-a com o objectivo de produzir um filme de qualidade.

A escolha do realizador é um bom exemplo da seriedade com que o estúdio encarou o filme e coube a Robert Wise, então com 37 anos, liderar o projecto. Wise começou a sua carreira cinematográfica como técnico de som com apenas 20 anos, mas foi como técnico de montagem que a sua carreira começou a ganhar forma, nomeadamente como responsável por dois filmes de Orson Welles: O Mundo a seus Pés e O Quarto Mandamento. Em 1944 realiza o seu primeiro filme (Mademoiselle Fifi) e dá o mais importante passo de uma carreira que se estendeu por mais de 60 filmes, entre os quais West Side Story - Amor sem Barreiras, Musica no Coração, O Caminho das Estrelas, entre outros. Numa entrevista, Wise revelou que o que o atraiu para O Dia em que a Terra Parou, foi o facto de o extra-terrestre não ser maléfico e a história de ficção-científica ser passada na terra, o que lhe conferia um maior realismo.

Para o papel principal, Wise pretendia Claude Rains, o Capitão Louis Renault de Casablanca, mas o responsável da Fox, Darryl Zanuck, tinha visto Michael Rennie numa peça em Londres e considerou que uma cara desconhecida traria outra dimensão ao personagem Klaatu.

Muito embora o seu cepticismo inicial, Patricia Neal foi a escolhida para a principal personagem feminina e a sua interpretação é bastante convincente. Na sua autobiografia, Neal considera O Dia em que a Terra Parou o melhor filme de ficção-científica algumas vez feito, mas revela que teve dificuldade em manter uma cara séria durante as filmagens e muitas vezes teve de morder os lábios para não se rir.

Devido aos seus 2,2 metros de altura, a escolha para desempenhar o papel do robot Gort recaiu em Lock Martin, porteiro do famoso cinema chinês em Los Angeles. Muito embora a altura de Martin, foi necessário construir uma estátua gigante do robot para as cenas onde era preciso enfatizar a sua dimensão. Construída à base de fibra de vidro, a estátua difere do fato de látex utilizado por Martin e durante o filme é possível ver as diferenças entre ambos.

O robot e nave espacial são da responsabilidade de Lyle Wheeler e Addison Herh, que os conceberam de uma forma linear e de forma a enfatizar a racionalidade e “clareza de visão” da raça extraterrestre, em contraponto com a “confusão” existente no planeta terra.

Para a banda sonora do filme a escolha recaiu no temperamental Bernard Herrmann (Psycho e Taxi Driver) que optou por música electrónica à base de sons experimentais e que viria a tornar-se uma referência neste tipo de género cinematográfico.

Produzido em plena guerra-fria com um orçamento de 950 mil dólares, O Dia em que a Terra Parou estreou em Setembro de 1951 e a sua mensagem contra o comunismo e guerra nuclear desde cedo foi assumida pelos produtores. Devido à cena em que Klaatu é ressuscitado e ao facto de este escolher o nome Carpenter (Carpinteiro) quando decide conhecer melhor o planeta terra, muitos vêem também no filme uma mensagem religiosa, mas esta nunca foi um objectivo dos responsáveis.

O conjunto das suas partes faz de O Dia em que a Terra Parou um bom filme cuja mensagem politica e social se mantém tão actual como em 1951 (exemplar a crítica ao papel das Nações Unidas).

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The Day the Earth Stood Still
20th Century Fox, Estados Unidos, 1951, 92 min., ficção-científica
Realizador: Robert Wise.
Argumento: Edmund H. North, baseado na história Farewell to the Master de Harry Bates.
Actores: Michael Rennie, Patricia Neal, Hugh Marlowe, Sam Jaffe, Billy Gray, Frances Bavier, Lock Martin, Drew Pearson, Frank Conroy, Edith Evanson, Tyler McVey

Uma nave espacial aterra em Washington com a missão de avisar os habitantes da terra em desistirem das guerras ou serão destruídos.

Texto de Rui Chambel
Foto: 100scifimovies.com

Historia do Cinema: 1910-1919

O início da industria cinematográfica e a influência da I Grande Guerra

D.W. Griffith, Mary Pickford, Charlie Chaplin (sentado) e Douglas Fairbanks (à direita) na assinatura de criação da United Artists

D.W. Griffith, Mary Pickford, Charlie Chaplin (sentado) e Douglas Fairbanks (à direita) na assinatura de criação da United Artists

Depois de nos primeiros anos ser visto como uma novidade, o cinema começa a desenvolver-se e as transformações que ocorrem durante a década de 1910 são os primeiros sinais de uma indústria que viria a marcar intensamente o século XX.

A cada vez maior aceitação do cinema pelo público leva ao surgimento de produtoras independentes, que tentam romper com a Motion Pictures Patents Corporation (MPPC) e a sua hegemonia no mercado de nickelodeons. As novas produtoras, entre elas a Independent Motion Pictures (IMP) e a Famous Players - Lasky Corporation, apostam em longas-metragens, em contra ponto com os pequenos filmes da MPPC, que aliam inovações tecnológicas ao espectáculo. Um dos realizadores que mais se destaca neste período é D.W.Griffith que realiza, em 1915, um dos filmes mais marcantes da história do cinema: O Nascimento de uma Nação.

Um dos factores decisivos que contribuiu para o desenvolvimento do cinema como industria foi a alteração da reacção do público em relação aos actores. Constatando que o público reagia a determinados actores (a ponto de querer saber mais sobre as suas vidas pessoais), os responsáveis pelos estúdios potenciaram essa situação, dando nome aos actores e criando, por vezes, “personagens reais” para alimentar a vontade do público. Nasce, assim, a estrela de cinema, que Hollywood conseguiu potenciar como ninguém.

De França e Inglaterra chegam filmes como La Dame aux Camélias (1911), Henry VIII (1911) e Hamlet (1913), longas-metragens que encontram uma grande receptividade junto de uma classe média cada vez mais receptiva à sétima arte, que, assim, deixa de ser uma mera forma de entretenimento para as classes trabalhadoras. Devido a estes acontecimentos, os nickelodeons entram em declínio e com eles a MPPC.

A década fica marcada pela I Grande Guerra Mundial, que, inevitavelmente, influenciou também a sétima arte. Se até ai o mercado mundial era dominado pelas produções francesas e americanas, com o início do conflito os filmes americanos começam a ganhar terreno devido à redução da produção europeia (com excepção da Suécia, cuja neutralidade permitiu manter uma regular produção cinematográfica).

Pelo final da década, e do conflito armado, a indústria cinematográfica era muito diferente da do início da década: substituídos por salas de cinema, os nickelodeons já praticamente não existiam e actores e realizadores eram agora figuras públicas com uma palavra a dizer no seu trabalho. Reflexo disso mesmo é a criação, em 1919, da distribuidora United Artists pelos actores Charlie Chaplin e Mary Pickford, pelo realizador D.W. Griffith e pelo produtor Douglas Fairbanks.

O final da década evidenciava já o que viria a acontecer nas décadas seguintes: o crescimento de Hollywood e o seu domínio na industria cinematográfica mundial.

UFA

Timeline: Década 1910 - 1919

1910

  • A MPPC tenta controlar a distribuição cinematográfica, mas enfrenta a oposição de produtores independentes como Carl Laemmle e William Fox.
  • A MPPC tenta limitar a exibição de filmes estrangeiros nos Estados Unidos.
  • D.W. Griffith compra, pela primeira vez na história do cinema, os direitos cinematográficos de uma obra de ficção (Ramona).
  • Alice Guy-Blaché, uma das pioneiras do cinema, o seu marido Herbert e George A. Magie fundam a Solax Company, que viria a tornar-se no maior estúdio de cinema pré-Hollywood.
  • A França, Itália e a Dinamarca são os principais exportadores de filmes para os Estados Unidos.
  • As primeiras salas de cinema começam a surgir na Alemanha.
  • Até 1913, a produção da empresa Dinamarquesa Nordisk Film é reconhecida internacionalmente.

1911

  • O público contesta a distribuição dos filmes de D. W. Griffith em várias partes e a Biograph decide distribui-los por inteiro.
  • As comédias deixam de dominar a produção cinematográfica, assistindo-se ao proliferar de outros géneros: dramas, westerns e recriações históricas.
  • A Nestor Company é o primeiro estúdio a iniciar actividade na Califórnia.
  • Na Europa, os filmes têm uma duração superior a 15 minutos e as suas histórias são cada vez mais complexas.
  • A indústria britânica começa a perder terreno para a produção francesa e americana.
  • O estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, cria um comité de censura.

1912

  • Adolph Zukor funda a Famous Players e Carl Laemmle cria a Universal Film Manufacturing, que mais tarde viria dar origem à Universal Pictures. O estúdio Keystone Comedy distribui o seu primeiro filme, tornando-se no estúdio dominante durante a década.
  • Francis X. Bushman e Beverly Bayne tornam-se no primeiro par romântico da história do cinema.
  • O governo americano e o distribuidor William Fox processam o Fundo Edison e a MPPC por práticas ilegais.
  • No Japão, vários estúdios tentam controlar o mercado, criando a empresa Nippon Katsudoshashin.
  • Estreia do primeiro filme indiano, Pundalik. Realizado por P.R. Tipnis e N.G. Chitre em Bombai, Pundalik conta a história da vida do santo hindu com o mesmo nome.

1913

  • A cidade de Nova Iorque cria legislação para regulamentar as salas de cinema, dando origem ao primeiro “palácio” cinematográfico em 1914.
  • A produção italiana de 8 bobines Quo Vadis é um sucesso internacional, sendo exibido em Nova Iorque durante meses, custando, cada entrada, o preço recorde de 1,50 dólares.
  • O realizador Cecil B. de Mille aluga um celeiro em Hollywood para o seu filme The Squaw Man; mais tarde viria a ser o local da Paramount Pictures.
  • A Edison Company demonstra em Nova Iorque o filme sonoro, mas o sistema não funciona correctamente.

1914

  • A personagem “O Vagabundo” de Charlie Chaplin surge pela primeira vez no filme Kid Auto Races at Venice.
  • Chaplin começa a realizar os seus próprios filmes.
  • Os filmes de animação tornam-se populares, surgindo personagens como “Gertie, o Dinaussauro” e ” Felix, o Gato”.
  • A primeira grande sala de cinema abre em Nova Iorque.
  • A Inglaterra produz os seus primeiros desenhos animados.
  • Durante a I Grande Guerra Mundial, a produção cinematográfica diminui drasticamente nos países europeus ocupados.

1915

  • A estreia do filme O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith, torna-se um acontecimento social. O filme tem a sua própria banda sonora (que se torna um êxito) e o preço do bilhete custa 2 dólares, o mesmo que uma entrada para o teatro. O filme provoca protestos anti-racistas, levando o presidente americano a condenar o filme.
  • A MPPC é formalmente acusada de práticas ilegais e há muito perdera o controlo da indústria cinematográfica para as produções de Hollywood.

1917

  • Na Alemanha, o Governo, o Banco Nacional Alemão e investidores conservadores adquirem pequenos estúdios e criam a produtora/distribuidora UFA, que vira a torna-se no estúdio dominante no país e um dos mais importantes da Europa.
  • Os filmes japoneses começam a utilizar técnicas como flashbacks e planos aproximados e as mulheres começam cada vez mais a interpretar papeis femininos, quebrando a tradição de todos os papeis serem interpretados por homens.

1918

  • Após anos de litígios, a MPPC deixa de existir.
  • A Warner Bros. distribui o seu primeiro filme e a Ebony Film Corporation distribui o primeiro apenas com actores negros.
  • Estrelas de cinema participam no esforço de guerra, interpretando papéis em filmes de propaganda e vendendo acções de guerra.

1919

  • Charlie Chaplin, Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith criam a United Artists para produzirem e distribuírem os seus próprios filmes.
  • Os estúdios começam a adquirir salas de cinema.
  • Oscar Micheaux, o primeiro realizador negro, realiza o seu primeiro filme (The Homesteader).
  • Os Estados Unidos dominam o mercado cinematográfico europeu.
  • Após a revolução, Lenin nacionaliza o cinema soviético, levando a que alguns realizadores emigrem para Europa e Estados Unidos.

Texto de Rui Chambel

Historia do Cinema: 1900-1909

Os nickelodeons

Salão de nickelodeons nos Estados Unidos

Salão de nickelodeons nos Estados Unidos

À entrada do novo século, o cinema era uma das mais baratas formas de entretenimento, essencialmente destinada às classes trabalhadoras. No entanto, em 1900, uma greve de artistas de variedades obrigou os donos de teatros a procurarem formas alternativas de entretenimento encontrando nas “imagens em movimento” uma boa opção. Ao mesmo tempo, os nickelodeons proliferavam nas cidades, sendo frequentados essencialmente por trabalhadores emigrantes.

Com o passar dos anos, o cinema deixa de ser visto como algo menor e começa a atrair a atenção das classes mais altas. Para isso, muito contribuíram os filmes de Edwin S. Porter, nomeadamente The Life of an American Fireman e o épico The Great Train Robbery. Com uma duração inédita de 12 minutos, The Great Train Robbery utilizava técnicas narrativas inovadoras e que viriam a ser desenvolvidas posteriormente ao longo dos anos, o que possibilitou captar um tipo de público diferente do habitual.

Na Europa, a empresa francesa Film d’Art eleva a qualidade das produções cinematográficas com as suas adaptações de grandes obras literárias, protagonizadas por consagrados actores de teatro. As produções da empresa influenciaram toda a industria e dão origem a um aumento da produção de filmes mais longos e vendidos a preços mais altos. Dois bons exemplos disso mesmo, são o francês La Reine Elisabeth (1912) e o norte-americano O Nascimento de de uma Nação (1915). França tornara-se um dos grandes centros de produção cinematográfica, tendo também as maiores produtoras cinematográficas do mundo, a Gaumont e Pathé. No outro lado do atlântico, as maiores empresas cinematográficas eram a Biograph, a Edison e a Vitagraph, cujo negócio tinha por base a venda de filmes a metro e de equipamento de projecção aos exibidores.

O final da década viu também o fim de uma luta entre várias empresas pelas patentes de equipamento cinematográfico e, em 1908, é criada a Motion Pictures Patents Company, conhecida como Fundo Edison. Esta empresa controlava a distribuição, produção e exibição cinematográfica e obrigava produtores e exibidores a comprarem material aprovado pelo Fundo, controlando, em monopólio, a industria cinematográfica americana.

À medida que as salas de cinema proliferavam, também a tecnologia se desenvolvia, nomeadamente a nível da projecção, tendo-se desenvolvido um conjunto de processos que perduram até hoje.

Nos Estados Unidos do final de década, os nickelodeons estavam no seu auge, sendo vistos por milhões de pessoas diariamente. Mas brevemente seriam substituído por verdadeiras salas de cinema, uma vez que os grandes estúdios de Hollywood, estavam prestes a nascer.

Viagem à Lua, de Georges Méliers

Viagem à Lua, de Georges Méliers

Timeline, Década 1900-1909

1900

  • Filmagens da vida real dominam a exibição de filmes.
  • Os irmãos Lumière produzem mais de 2 mil filmes, na sua maioria, actividades do dia à dia e histórias de acção.
  • Em França, Léon Gaumont demonstra a sincronização de imagens e som.

1901

  • A francesa Pathé é o maior estúdio do mundo.
  • A Finlândia assiste à inauguração da primeira sala de cinema do país.

1902

  • Georges Méliers utiliza, de forma experimental, animação e efeitos especiais nos filmes L’ Homme à La Tête en Caoutchouc e Le Voyage dans la Lune, respectivamente.

1903

  • No seu filme Life of an American Fireman, Edwin S. Porter utiliza técnicas de montagem inovadoras para construir tensão dramática, assim como planos de ligação e de aproximação.
  • Porter realiza The Great Train Robbery, o primeiro western da história do cinema.
  • Abre a primeira sala de cinema no Japão.
  • Peter Elfelt realiza o primeiro filme de ficção dinamarquês, Henrettelsen.

1904

  • A empresa francesa Pathé abre o seu primeiro estúdio em Nova Iorque.
  • Copenhaga recebe a primeira sala de cinema da Dinamarca.

1905

  • O filme de 35mm a 16 fotogramas por segundo, desenvolvido pelos irmãos Lumière, torna-se a regra na industria cinematográfica.
  • Durante os próximos anos, a francesa Gaumont domina a industria cinematográfica, quer em quantidade de filmes produzidos, quer em reputação.
  • A produção japonesa aumenta com o inicio da guerra entre o Japão e a Rússia.
  • Abre, em Londres, a primeira sala de cinema construída de raiz.
  • Itália produz a sua primeira longa-metragem.
  • Nasce o primeiro jornal dedicado à industria cinematográfica, Variety, publicada ainda nos dias de hoje.

1906

  • James Stuart Blackton realiza um dos primeiros filmes de animação, Humorous Phases of a Funny Face.
  • A Islândia inaugura a sua primeira sala de cinema.
  • O filme australiano The Story of the Kelly Gang é a primeira longa metragem da história do cinema, com pouco mais de uma hora de duração.
  • Em Inglaterra, G.A.Smith regista o sistema de cor, Kinemacolor.
  • O inventor sueco Sven Berglund trabalha num sistema de gravação de som em película, através de um processo óptico.

1907

  • A audiência dos nickelodeon ultrapassa os 2 milhões e os filmes são acusados pela Igreja e pela imprensa de incentivarem a violência.
  • Os filmes britânicos, que até aqui tinham bastante aceitação internacional começam a diminuir de importância devido ao aumento da industria americana.
  • A Finlândia produz o seu primeiro filme (Salavinanpolttajat).

1908

  • É criada a Motion Pictures Patents Company para administrar a produção e distribuição cinematográfica e que tem como objectivo alargar o cinema às classes mais abastadas da sociedade.
  • D. W. Griffith é contratado pela Biograph e realiza o seu primeiro filme, The Adventures of Dollie.
  • A Noruega produz o seu primeiro filme de ficção (Fiskerlivets Farer: Et Drama po Havet).
  • O Japão assiste à inauguração do primeiro estúdio do país.
  • Vladimir Romashkov realiza o primeiro filme russo (Stenka Razin).
  • Mario Gallo realiza El Fusilamiento de Dorrego, o primeiro filme argentino com actores profissionais.
  • O realizador português António Leal realiza, no Brasil, Os Estranguladores e Os Guaranis.
  • Os primeiros filmes a cores são exibidos em Londres.

1909

  • Carl Laemmle funda o primeiro estúdio independente da Motion Picture Patents Company (MPPC). Outros produtores independentes rejeitam as regras da MPPC e começam a rodar os seus filmes na Califórnia, tornando esta no grande centro cinematográfico dos Estados Unidos.
  • O estado de Nova Iorque estabelece uma comissão de censura.
  • É criada, em Paris, a Société du Film d’Art para produzir filmes de melhor qualidade que atraiam as classes sociais mais altas.
  • O governo inglês cria legislação para regulamentar a actividade cinematográfica.
  • O escritor irlandês James Joyce abre a primeira sala de cinema em Dublin.

Texto de Rui Chambel

Historia do Cinema: 1830-1899

Da descoberta da fotografia às imagens em movimento

Gravação kinetoscópica de um espirro por Edison

Gravação kinetoscópica de um espirro por Edison

O cinema mais não é do que uma ilusão óptica, em que um conjunto de imagens, cada uma ligeiramente diferente da anterior e projectadas num ecrã de uma forma rápida, é interpretado pela mente humana como movimento contínuo. Este fenómeno, designado por persistência da visão, foi uma das invenções e descobertas cientificas ocorridas ao longo do século XIX, que possibilitaram o nascimento do cinema.

Uma inovação essencial para o nascimento do cinema foi, então, a fotografia, que se tornou comercialmente viável em 1839, quando Louis Daguerre desenvolveu um método que permitiu a impressão de fotografias em chapas de metal. Enquanto o método de Daguerre permitia a captura de sucessivas imagens de pessoas ou objectos em movimento, o Zoopraxiscope, de Eadweard Muybridge, permitia a projecção num ecrã, de uma forma rápida, de imagens imprensas num vidro rotativo, dando assim a ilusão de movimento. Outros avanços tecnológicos importantes para o nascimento do cinema foram a descoberta da electricidade e das lâmpadas incandescentes, que mais tarde viriam a ser incorporadas nos projectores, e o celuloide, que John Wesley inventa em 1869 e que servirá, anos depois, como a base da película cinematógrafica.

Muito embora todos estes avanços, o nascimento do cinema não foi imediato e foi necessário o espírito criativo de Thomas Edison, nos EUA, e dos irmãos Lumière, em França, para que a sétima arte visse a luz do dia. Edison, ao aperceber-se que as imagens em movimento poderiam atrair muita gente, desenvolveu o Kinetoscope, uma caixa de madeira que funcionava à base de moedas e que permitia a uma pessoa assistir a um pequeno filme. Os primeiros filmes de Thomas Edison estrearam em Abril de 1894 em Nova Iorque, onde Edison abriu o primeiro salão Kinetoscope. o primeiro filme registado foi “Edison Kinetoscopic Record od a Sneeze” (Gravação kinetoscópica de um espirro por Edison - tradução livre).

No ouro lado do Atlântico, os irmãos Lumiere tomam conhecimento da invenção de Edison e interessam-se pelas imagens em movimento, inventando o Cinematógrafo, um aparelho que permitia a projecção de filmes num ecrã. A 28 de Dezembro de 1895, no Salon Indien du Grand Café, em Paris, os Lumiere efectuam a primeira projecção pública de filmes e o cinema, tal como o conhecemos, nasceu. Do programa desse dia constaram, entre outros, os filmes La Sortie des Usines Lumière (que mostra operários a saírem da fábrica dos irmãos Lumière) e L’Arroseur Arrosé, o primeiro filme de ficção da história do cinema.

Thomas Edison não se fica atrás e adquire o seu próprio sistema de projecção, o Vitascope, e inicia a projecção de filmes em 1896. No final da década outras empresas surgem no mercado, entre elas a Biograph e a Vitagraph, e no meio de sucessivos processos judiciais por causa de patentes, o cinema começa a ganhar público entre as classes trabalhadoras.

Café Paris

Café Paris, local da primeira exibição pública de cinema

Timeline, Década 1800 - 1899

1831

  • Os fisicos Michael Faraday (britânico) e Joseph Henry (americano) descobrem o principio da indução electromagnética, que levará, no final da década, à descoberta da energia eléctrica.

1839

  • O inventor francês Louis Daguerre desenvolve o Daguerreotype, o primeiro método comercial para produzir fotografias.

1841

  • O inventor britânico William Fox Talbot patenteia o Calotype, processo para imprimir negativos fotográficos em papel.

1869

  • John Wesley Hyatt inventa o primeiro plástico comerciável, o celuloide, que mais tarde servirá de base à película cinematográfica.

1879

  • O americano Thomas Edison regista a primeira lâmpada incandescente, que será parte importante dos projectores cinematográficos.

1887

  • Na Alemanhã, Ottomar Anschultz demonstra o Electrotachyscope, um mecanismo que faz girar um disco com imagens e que, assim, cria a ilusão de imagens em movimento. Ao contrário da projecção, as imagens do Electrotachyscope apenas eram vistas por uma dezena de pessoas ao mesmo tempo.

1889

  • O americano George Eastman inventa o filme de celuloide perfurado.
  • Thomas Edison desenvolve o Kinetophonograph que permite sincronizar a projecção de um filme com uma gravação fonográfica. 1891
  • Thomas Edison inventa o primeiro sistema cinematográfico do mundo,o Kinetograph, e o Kinetoscope, uma caixa que permitia ver filmes.

1892

  • O francês Émile Renauld demonstra o Praxinoscope, que permite projectar pequenas animações desenhadas à mão, num ecrã.

1893

  • Thomas Edison constrói o primeiro estúdio de cinema (Black Maria) em Nova Jersia.
  • Tem lugar em Nova Iorque a primeira exibição pública do Kinetoscope.

1894

  • Thomas Edison inicia a actividade comercial do Kinetoscope, em Nova Iorque.
  • Robert W. Paul, um cientista de Londres, descobre que Edison não tinha registado o Kinetoscope na Inglaterra e começa a aperfeiçoá-lo; os melhoramentos incluem um sistema que torna as imagens menos distorcidas e a sua projecção num ecrã.
  • Em Berlim, Ottomar Anschutz faz a demonstração de um sistema de projecção.

1895

  • A 28 de Dezembro, os irmãos Lumière efectuam a primeira exibição pública de filmes, data considerada como a do nascimento do cinema.
  • Os americanos Thomas Woodville e Charles Jenkins desenvolvem o Phantascope, um sistema de projecção mais desenvolvido.
  • Em Inglaterra, Robert W. Paul e o fotografo Birt Acres colaboram na construção de uma câmara de filmar; Acres começa a filmar eventos desportivos.
  • Na Alemanha, Max Skladanowsky regista o seu projector Bioskop e faz uma projecção pública em Berlim.

1896

  • Thomas Edison adquire os direitos do Phantascope (passando-se a chamar Vitascope) e inicia projecções públicas em Nova Iorque.
  • As empresas Biograph e Vitagraph iniciam operações, tornando-se nas principais rivais da Edison Company.
  • Em Inglaterra, Birt Acres demonstração da projecção de filmes e funda a Northern Photographic Works.
  • Robert W. Paul dá a conhecer o seu método de projecção de filmes e meses depois realiza o primeiro filme de ficção inglês, The Soldier’s Courtship.
  • Peter Elfelt realiza o primeiro filme Dinamarquês.
  • O espectáculo dos Irmãos Lumiere estreia na Índia.
  • A primeira exibição cinematográfica em Espanha ocorre em Madrid, perante uma audiência constituída principalmente por colegiais.

1897

  • A Vitagraph estreia o seu primeiro filme de ficção The Burglar on the Roof.
  • Fructuoso Gelabert realiza o primeiro filme de ficção espanhol, Rina en un Café.

1898

  • Até meados da década seguinte, em vez de alugarem, as empresas cinematográficas vendem os filmes e o equipamento de projecção às empresas exibidoras.
  • Os imigrantes e as classes trabalhadoras constituem o grande público cinematográfico.

1899

  • Cecil Hepworth, um dos fundadores da industria cinematográfica britânica, produz os seus primeiros filmes.
  • O Japão produz os seus primeiros filmes.
  • Robert W. Paul inaugura um dos primeiros estúdios ingleses no norte de Londres.
  • Auguste Baron trabalha no seu sistema sonoro, mas não encontra grande receptividade.

Texto de Rui Chambel

Alice Guy-Blache, Pioneira da Setima Arte

Alice Guy-Blaché

A história do cinema está cheia de figuras pioneiras, que os tempos esqueceram. Alice Guy-Blaché é uma dessas figuras e cujo contributo foi fundamental para o desenvolvimento do cinema enquanto arte.

Alice Guy nasceu a 1 de Julho de 1873, em Paris. Filha de pais franceses, que viviam no Chile, Alice viveu os seus primeiros anos com a avó, até os pais regressarem a França, onde viriam a morrer pouco tempo depois.

A nível profissional, Alice Guy começou a sua carreira como secretária de Leon Gaumont, que trabalhava para um fabricante de máquinas fotográficas. Quando o negócio deste entrou em dificuldades económicas, Gaumont, em conjunto com outras figuras, entre elas Gustave Eiffel, comprou o inventário da empresa e formou, em 1895, a Gaumont, que viria a ser uma das mais importantes empresas cinematográficas do mundo. Alice acompanhou Gaumont na nova empresa e como responsável pela produção o seu trabalho revelou-se inovador, nomeadamente na utilização de cor, de som, de efeitos especiais e no desenvolvimento da narrativa cinematográfica, cujo melhor exemplo é La Fée Aux Choux (1896), considerado o primeiro filme narrativo da história do cinema. Em 1906, Alice realiza dois outros marcos da sua carreira: La Vie du Christ, a sua primeira longa-metragem e um dos grandes blockbusters da época do cinema mudo, com 25 cenas e cerca de 300 figurantes, e La Fée Printemps, que utiliza efeitos especiais a cores.

Em 1907, Alice casa com Herbert Blaché, que, pouco depois, foi nomeado responsável de produção da Gaumont nos Estados Unidos. Alice acompanha o marido para os Estados Unidos e, após trabalharem juntos na Gaumont norte-americana, o casal decide formar a sua própria empresa: a Solax Company. Sediada em Nova Iorque, a Solax tornar-se-ia no maior estúdio pré-Hollywood e onde Alice continuou o seu trabalho como directora artística, escrevendo e realizando grande parte da produção da empresa.

Em 1922, Alice Guy-Blaché realiza Tarnished Reputations, que viria a ser o seu último filme e dois anos depois divorcia-se, regressando a França. Ai tenta retomar a sua carreira, mas a dificuldade em provar o seu curriculum, já que poucos ou nenhum dos filmes da Gaumont sobreviveram, levam-na a escreve romances a partir de argumentos cinematográficos e a dar palestras sobre cinema. Esquecida durante décadas, Alice Guy-Blaché viu o seu trabalho reconhecido em 1955, quando foi condecorada pelo Governo Francês com a Legião de Honra. Nove anos mais tarde regressa os Estados Unidos para viver com uma das suas filhas, falecendo em 1968.

Com uma carreira de mais de 700 filmes, que abrangeram géneros tão diferentes como o drama, o western e as biografias, o trabalho de Alice Guy-Blaché permitiu o desenvolvimento do cinema, ajudando-o a transformar-se técnica e esteticamente.

Texto de Rui Chambel
Foto: www.msmagazine.com*

Casablanca (1942)

A compra, em 1941, da peça Everybody Comes to Rick’s, pelo então chefe de produção da Warner Bros. Hal Wallis, deu inicio à produção de um dos mais famosos filmes de todos os tempos. Muito embora Casablanca seja um “produto” do studio system que vigorava em Hollywood na altura, é possível identificar o importante papel que Wallis teve no resultado final. O chefe de produção da Warner não se limitou apenas a supervisionar a produção do filme, a sua intervenção abrangeu todos os aspectos da produção, tendo, por exemplo, decidido ainda antes da compra da peça que Humphrey Bogard seria a estrela do filme.

Em 1942, Wallis pediu aos irmãos Epstein, dois dos melhores argumentistas da Warner, as suas opiniões sobre a peça que comprara. A resposta foi entusiasta e deve-se aos dois argumentistas grande parte do argumento do filme, em particular o humor e as transformações das personagens do Capitão Renault e de Rick (que lhes conferiram maior simpatia e interesse). Quando os irmãos Epsteins entregaram a primeira versão do argumento e continuavam a trabalhar no que faltava, Wallis pediu a outro argumentista do estúdio, Howard Koch, a sua opinião. O contributo de Koch permitiu melhorar ainda mais a personagem interpretada por Bogard e "encaixar" melhor na história algumas das suas atitudes.

A primeira escolha para realizador recaiu em William Wyler, mas a pretensão de Wallis não se concretizou e teve de recorrer ao seu amigo Michael Curtis. De origem húngara, Curtiz realizara mais de 60 filmes mudos na Europa antes de viajar para os Estados Unidos, onde foi recepcionado por Wallis, que na altura era ainda apenas um dos publicistas da Warner e os dois tornaram amigos desde esse momento. Quando Wallis lhe ofereceu Casablanca, Curtiz estava ocupado a terminar Yankee Doodle Dandy e não deu muita importância ao seu novo trabalho. No entanto, o papel do realizador foi preponderante, em particular no ritmo que imprimiu ao filme.

Também importante foi a escolha dos actores. Se Bogard foi a primeira (e única) opção para o papel principal, já a escolha de Ingrid Bergman se deveu ao facto de o seu contracto ser mais barato que o de Michele Morgan, actriz também considerada para o papel de Ilsa. Bergman vivia um momento menos feliz da sua vida e quando soube que tinha sido contratada a sua reacção foi um misto de nervosismo e excitação, reconhecendo que nada sabia sobre o filme. Para os restantes papeis a Warner conseguiu excelentes actores (dificilmente se consegue imaginar Casablanca sem Claude Rains ou Peter Lorre), tendo à sua disposição um vasto conjunto de actores europeus: estrelas nos seus países, grande parte deles tiveram de se exilar nos Estados Unidos durante a guerra, onde aceitavam papeis menores.

A rodagem de Casablanca iniciou-se no dia 25 de Maio de 1942, com grande parte do argumento já concluido. No entanto, para Wallis subsistiam ainda alguns problemas com a personagem de Ilsa e com o final da história. Muito embora os rumores em contrário, nunca houve muitas duvidas que Ilsa acompanharia Laszlo para Lisboa, o problema estava em como dar credibilidade ao final. A solução da peça original não era a melhor, tanto para mais que a entrada dos Estados Unidos na II Grande Guerra inviabilizava qualquer tipo de vitória para a Gestapo. Assim, o confronto final foi transferido para o aeroporto e a presença de Laszlo apanha Ilsa de surpresa, acompanhando-o na viagem para Lisboa.

Com o fim da rodagem, em meados de Julho, o compositor Max Steiner começou a trabalhar na banda sonora. Steiner não gostou de As Time Goes By e tentou convencer Wallis a substituir a canção por uma das suas baladas. Mas como Ingrid Bergman já tinha cortado o cabelo para o papel que iria interpretar em For Whom the Bell Tolls, não pode filmar novamente a cena e, assim, a canção manteve-se no filme.

Mesmo com a rodagem terminada, Wallis não deixou de melhorar o filme e em meados de Agosto acrescentou a cena do polícia a anunciar a morte de dois agentes alemães e fez Bogard gravar uma nova frase: “Louis, i think this is the beginning of a beautiful friendship“.

Casablanca estreou no dia 26 de Novembro de 1942 em Nova Iorque, mas só seria exibido a nível nacional em Janeiro do ano seguinte. O filme foi um dos sucessos de bilheteira de 1943 e numa sondagem onde participaram cerca de 435 críticos foi considerado o 5º melhor do ano. No entanto, Casablanca acabaria de ganhar o Óscar para melhor filme, melhor realizador e melhor argumento.

Talvez com a excepção das interpretações de Bogard e Bergman, não há nada mais em Casablanca que se possa considerar de excepcional. No entanto, no seu todo, é um filme maravilhoso, em que todos os seus elementos combinam na perfeição, fazendo dele um dos melhores da história da sétima arte.

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Casablanca
Warner Bros., Estados Unidos, 1942, 102 min., drama.
Realizador: Michael Curtiz.
Argumento: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch e Casey Robinson (sem crédito), baseado na peça “Everybody Comes to Rick’s” de Murray Burnett e Joan Alison.
Actores: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre, Dooley Wilson.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Casablanca é o refugio para exilados de guerra e o ponto de passagem para Lisboa a caminho dos Estados Unidos. Rick Blaine, exilado americano, é dono do clube nocturno mais popular de Casablanca, local de intriga e conspirações. Quando Victor Laszlo (líder da resistência) chega a Casablanca acompanhado de Ilsa, Rick vê-se confrontado em ajudar a mulher que o abandonou anos antes em Paris.

Texto de Rui Chambel
Foto: www.themoviedb.org