História(s) do Cinema

Os factos, os números e as curiosidades da Sétima Arte

Após o sucesso surpresa de Ter ou Não Ter, a Warner Bros. pediu ao produtor e realizador Howard Hawks para repetir a fórmula e juntar de novo o par Bogard e Bacall. Hawks aceitou o desafio e viu no livro de Raymond Chandler The Big Sleep, a história ideal para o par romântico. Hawks pediu à Warner 50 mil dólares para adquirir os direitos cinematográficos do livro, tendo pago apenas 5 mil a Chandler. O restante dinheiro ficou no bolso do realizador e, de acordo com Chandler, Hawks mereceu todo o dinheiro já que transformou a história de um detective privado, numa engraçada, sensual e emocionante viagem pela Los Angeles dos anos 40.

A história original escrita por Chandler é cheia de referências a temas polémicos (estávamos em plena década de 1940) como drogas, pornografia e homossexualidade. Com o Código de Produção em pleno vigor, não era possível ao argumentista William Faulkner (Nobel da Literatura) ser fiel à obra de Chandler e o argumento sofreu muitas alterações (para as quais também contribuíram Leigh Brackett e Jules Furthman). Embora a história seja confusa (nem o próprio Chandler sabia quem tinha assassinado quem), o filme está longe de ser frustrante e essa confusão faz parte do seu charme.

Hawks tinha razão e À Beira do Abismo revelou-se perfeito para Bogard e Bacall colocarem no ecrã a química (e o romance) que existia entre eles. Se Bogard era já uma estrela de Hollywood, Bacall era uma jovem que dava os primeiros passos na sétima arte. O seu primeiro filme (Ter ou Não Ter) foi um sucesso, fazendo do casal um dos pares românticos de maior sucesso da América. No entanto, o seu segundo filme (Confident Agent, onde contracena ao lado de Charles Boyer) teve uma recepção muito fraca, o que deu mais força a um novo filme entre Bogard e Bacall.

O filme foi rodado durante o Outono de 1944, em plena II Guerra Mundial, e a primeira versão não agradou ao agente de Bacall que exigiu novas cenas (a enfatizar a excelente relação com Bogard) e uma nova montagem. A Warner acedeu e Hawks realizou novas cenas, com especial destaque para a cena dos “cavalos de corrida”: um dos mais tensos e espectaculares diálogos da sétima arte.

A primeira versão (apenas exibida às tropas americanas que combatiam na II Guerra Mundial) foi arquivada pela Warner, que estreou a 2ª versão do filme em Agosto de 1946 com grande sucesso (apenas chegou a Portugal em Janeiro de 1948). Em 1997, foi descoberta a versão de 1945, que a Universidade da Califórnia restaurou e tornou possível a comparação entre as duas versões: se na primeira a história é menos confusa e inclui uma cena em que o chefe da polícia explica os acontecimentos, apenas na versão de 1946 é possível ver as melhores cenas da explosiva relação entre Bacall e Bogard.

Para Howard Hawks, um dos grandes realizadores americanos, um bom filme é um que contém 3 boas cenas e nenhuma má. A comparação entre as duas versões permite constatar que à segunda versão foi adicionada uma das boas cenas do filme e eliminadas algumas das más, provando que o realizador tinha razão.

Resultado do trabalho de grandes profissionais, À Beira do Abismo é um excelente film noir (mesmo faltando algumas das características que definem o género) com um ritmo alucinante e um argumento com diálogos inteligentes que permite aos personagens deambular por uma atmosfera negra e diabólica.

Em 1978, Robert Mitchum interpretou o papel do detective Philip Marlow, num remake britânico de À Beira do Abismo, mas o filme, passado em Londres nos anos 70, está longe da frescura e atmosfera do original.

The Big Sleep. Warner Bros. / First National Pictures. Estados Undios, 1946, 114 min., thriller. Realizador: Howard Hanks. Argumento: William Faulkner, Leigh Brackett e Jules Furthman, baseado na obra de Raymond Chandler. Actores: Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Ridgely, Martha Vickers, Dorothy Malone, Peggy Knudsen, Regis Toomey

Um detective privado investiga um caso de chantagem e envolve-se com as filhas do homem que o contratou.

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O cinema está recheado de histórias incríveis e nenhum outro período é tão fértil como o do cinema mudo. Uma dessas histórias é a do revolucionário mexicano Pancho Villa, que assinou um contracto com a Mutual Film Corporation para a venda dos direitos cinematográficos da revolução mexicana.

No início do século XX, o México era liderado pelo presidente Porfirio Diaz, cuja governação oprimia o povo e levou à insurreição em 1910. Uma das facções revolucionárias era comandada pelo general Pancho Villa, que dominava o norte do país e a fronteira com os Estados Unidos. Como excelente estratega que era, Villa, cujo nome verdadeiro era José Doroteo Arango Arámbula, cedo se apercebeu da importância dos meios de comunicação e utilizou-os para promover a sua imagem, nomeadamente nos Estados Unidos. É neste contexto que Villa assina um contracto, em 1914, com a Mutual para a cedência dos direitos cinematográficos das suas acções militares, no valor de 25 mil dólares mais parte dos lucros do filme.

Na época, a popularidade do cinema nos Estados Unidos crescia a cada dia que passava e todos os filmes eram poucos para um público ávido de novidades cinematográficas. A par de melodramas e comédias, os newsreels com imagens de guerra eram também bastante populares e, neste contexto, o contracto entre a empresa cinematográfica americana e o revolucionário mexicano surge naturalmente.

Ao longo dos anos, muitas histórias têm sido escritas sobre o contracto, nomeadamente sobre as suas “estranhas” cláusulas. Uma delas supostamente referiria que as batalhas apenas poderiam decorrer entre as 9h da manhã e as 16h da tarde, uma vez que era o período ideal para se filmar. Mais, seria o operador de câmara que, ao gritar “acção!”, daria início aos ataques de Villa. Outra história que chegou até aos nossos dias é a da Mutual ter “vestido” Villa e os seus homens com guarda-roupa de filmes, já que os trajes dos mexicanos não tinham impacto cinematográfico suficiente. Estas histórias são isso mesmo e o único exemplar existente do contracto (que se encontra num museu no México) nada refere sobre estas cláusulas.

O que se sabe verdadeiramente é que as condições de filmagem não foram fáceis e o actor e realizador Raoul Walsh (A Pista dos Gigantes), que a Mutual enviou para o México, viu-se obrigado a encenar as cenas de batalha, utilizando os próprios guerreiros de Villa. No entanto, nem assim a Mutual ficou muito entusiasmada com as imagens que chegavam do México. Uma vez que as imagens não eram muito diferentes do que as conseguidas noutras guerras sem contrato, a empresa alterou a sua estratégia e decidiu produzir um filme de ficção sobre a vida de Pancho Villa (The Life of General Villa) e onde foram incorporadas as imagens já filmadas. Com as novas indicações da Mutual, Walsh regressou a Los Angeles, onde completou o filme com cenas rodadas em estúdio e interpretou um jovem Pancho Villa.

The Life of General Villa, que está dado como perdido, estreou em Nova Iorque no dia 14 de Maio de 1914 e foi bem recebido, quer pela crítica, quer pelo público. No entanto, é referido como um banal melodrama, que vale mais pela sua perspectiva histórica do que pela sua mais-valia artística.

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As luzes apagam-se. Os anúncios passam. De repente, uma fanfarra familiar começa a tocar e no ecrã surge o logótipo do estúdio responsável pelo filme: o leão da Metro-Goldwyn-Mayer, a senhora da Columbia Pictures, a montanha da Paramount Pictures. Muitas vezes vimos estes logótipos e não lhes prestamos atenção. No entanto, fazem parte da experiência cinematográfica. Quem imaginou e produziu estes breves, mas familiares momentos? Quais as histórias por detrás destas imagens?

logotipos

O século XX viu nascer o logótipo corporativo e este tornou-se num símbolo poderoso, que cria no consumidor uma identificação instantânea com a marca, transmitindo-lhe, inconscientemente os seus valores. Os estúdios de Hollywood fizeram parte desta prática desde o seu início, tendo-se inspirado nos programas de teatro e de variedades, em que cartões identificavam os intérpretes antes do começo do espectáculo.

Os primeiros filmes apresentavam apenas um cartão com o nome da produtora, o seu logótipo e, por vezes, uma frase sobre os direitos de autor. Com o aparecimento das produtoras independentes, por volta de 1909, os créditos iniciais foram evoluindo, passando a surgir também os nomes dos actores e, mais tarde, realizadores, directores de fotografia, argumentistas, entre outros. Por esta altura, começa o hábito de se separar o logótipo da produtora dos restantes créditos, ganhando aquele um espaço próprio no início de cada filme.

É também por esta altura, que surgem os primeiros logótipos em movimento, ao contrário dos restantes que eram desenhos. Aqueles eram mais complicados de produzir e tinham de ser recriados para cada filme produzido, o que se tornava muito oneroso (no inicio do século XX, cada estúdio produzia, em média, cerca de 100 filmes por ano). Para resolver o problema, o logótipo era filmado uma vez, copiado e colocado no início da primeira bobine de cada filme. Uma prática que se mantém até aos nossos dias. Com o advento do cinema sonoro, alguns estúdios adicionaram som e fanfarras aos seus logótipos, como foi o caso da 20th Century-Fox e da RKO Radio Pictures.

Conheça, de seguida, as histórias dos logótipos dos mais carismáticos estúdios de Hollywood.

Metro-Goldwyn-Mayer

De todos os logótipos, o da Metro-Goldwyn-Mayer é o mais conhecido e carismático de todos, sendo um dos que menos alterações sofreu ao longo dos anos. A sua origem remonta a 1918 e foi criado pelo publicista Howard Dietz para a Goldwyn Pictures. A versão do logótipo, tal como a conhecemos, foi utilizada em 1925, aquando da nova designação do estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer.

Embora ao longo dos anos tenham sido filmadas diversas versões de Leo (nome por que ficou conhecida a mascote do estúdio), nenhuma alterou substancialmente o logótipo, nem mesmo quando filmaram a versão em Cinemascope.

Em 1966 e seguindo a moda da época, o carismático leão foi substituído por uma imagem estilizada, mas o protesto de fãs e accionistas fizeram a administração do estúdio recuar, mantendo o antigo até aos dias de hoje.

20th Century Fox

Embora não tão carismático como o da Metro-Goldwyn-Mayer, o logótipo da 20th Century-Fox é também uma das mais conhecidas imagens de marca de Hollywood. Criado pelo artista Emil Kosa, Jr. em 1933, para a 20th Century Pictures, o logótipo do estúdio tem como ponto forte a fanfarra que o acompanha e que foi criada pelo então director musical da United Artist, Alfred Newman.

Em 1935, a 20th Century Pictures funde-se com a Fox Film Corporation e Kosa redesenha o logótipo de forma a incorporar o nome da nova empresa: 20th Century-Fox. Durante essa década o logótipo não sofreu grandes alterações e só com a versão em Cinemascope (a 20th Century-Fox foi o primeiro estúdio a ter uma versão a cores do seu logótipo) é que este sofre a sua primeira grande alteração, novamente por Kosa: o edifício é redesenhado e o fundo passa a ser um crepúsculo.

Durante um pequeno período no início da década de 70, os filmes do estúdio deixaram de apresentar a sua imagem de marca, mas, à semelhança do que aconteceu com a Metro-Goldwyn-Mayer, também a administração recuou na decisão, perante os protestos de admiradores e accionistas.

Em 1994, foi realizada a a primeira versão computorizada e muito embora as diferentes versões ao longo dos anos, a fanfarra foi praticamente sempre a mesma criada por Alfred Newman.

Columbia Pictures

A “Senhora Columbia”, a personificação da América, surgiu pela primeira vez em 1924 e foi inspirada por uma debutante num poster de propaganda anti-Alemanha. Embora diversas actrizes tenham, ao longo dos anos, afirmado que serviram de modelo para o logótipo, a verdade é que nem o próprio estúdio tem registos do processo.

No logótipo que surge no início do filme Uma Noite Aconteceu (1934), a “Senhora Columbia” surge envolta numa tonga, segurando uma tocha e com a bandeira dos Estados Unidos à sua volta. Nesta versão, as letras do estúdio surgem já esculpidas em maiúsculas, o fundo é negro e a senhora está apenas de pé.

Cinco anos mais tarde, uma nova versão do logótipo surge com o filme Peço a Palavra (1939) e é já muito diferente: a “Senhora Columbia” surge em cima de um pedestal, a sua figura é mais elegante, a bandeira norte-americana é menos visível, nuvens substituem o anterior fundo negro e apenas surge a palavra Columbia.

Ao longo das décadas seguintes, o logótipo sofre diversos retoques, mas nada que o altere significativamente. Em 1976 dá-se a maior das alterações do logótipo, com a “Senhora Columbia” a desaparecer por completo e substituída por um desenho dos raios da tocha.

Em 1982, a Coca-Cola compra o estúdio e 7 anos depois a “Senhora Columbia” regressa como imagem de marca, mais curvilínea que nunca, havendo quem dissesse que a silhueta da senhora era semelhante a uma garrafa de Coca-Cola.

Com a compra do estúdio pela japonesa Sony, o logótipo regressa às origens, com uma imagem clássica, mas actualizada aos tempos modernos. Como curiosidade refira-se que nesta versão o rosto final, embora baseado numa modelo norte-americana, é uma composição computorizada.

Paramount Pictures

A montanha Paramount é o logótipo mais antigo dos estúdios de Hollywood, tendo sido escolhida pelo criador da empresa em 1914. No entanto, o primeiro filme onde é possível ver o logótipo sozinho e em toda a sua grandeza é no filme Asas (1927), curiosamente o primeiro a ganhar um Óscar de melhor filme.

Ao longo das décadas, o logótipo da Paramount Pictures foi sofrendo alterações, o mais importante em 1953 quando o estúdio fez uma versão para ecrãs panorâmicos: o artista Jan Domela criou uma montanha maior, mais colorida e com mais paisagem à sua volta.

Entre 1954 e 1956, o logótipo ganhou uma fanfarra, tendo esta versão sido exibida apenas com os filmes produzidos no sistema VistaVision. Na década de 70, o logótipo ganha uma versão estilizada e em 1987 é criada a versão computorizada, aquando do 90º aniversário do estúdio.

Warner Bros.

A origem do logótipo da Warner Bros. perdeu-se no tempo e um dos primeiros filme onde é possível ver o escudo é no filme Cantor de Jazz (1927), o primeiro filme sonoro da história do cinema.

Muito embora as suas muitas alterações ao longo das décadas, o escudo manteve-se sempre como imagem de marca do estúdio. A excepção foi o início da década de 30, em que o escudo foi substituído por bandeiras, mas regressou em 1935. A acompanhar as diversas alterações corporativas da empresa, o logótipo, mantendo o escudo, foi sendo alterado de forma a reflectir os diversos nomes da empresa: do W7 da Warner Bros. – Seven Arts até ao simples “W” da Warner Comunications.

Na década de 80, o logótipo original regressou também como imagem de marca da empresa subsidiária do estúdio, a Warner Bros. Family Films. De forma a reflectir os filmes familiares desta empresa, o seu logótipo era constituído pelo escudo original da Warner e por... Bugs Bunny. O mais recente logótipo é feito em computador, mostrando os edifícios do estúdio reflectidos no escudo.

RKO Radio Pictures

O símbolo da RKO foi criado em 1929 por Linwood G. Dunn, que recriou uma miniatura do logótipo (uma antena em cima de um globo a girar) e o filmou através de paredes de vidro onde tinham sido desenhadas nuvens. Desde a primeira versão do logótipo que se consegue ouvir os famosos sons de código morse “A Radio Production”. Desde então o logótipo tem-se mantido praticamente o mesmo, sendo o que menos alterações sofreu ao longo dos anos. Em 1994, os novos donos da RKO produziram uma versão computorizada do logótipo, mas esta nova versão deixou de ter o som do código morse.

Universal Pictures

O desaparecimento ao longo dos anos de muitos dos primeiros filmes da história do cinema, não permite saber quando é que o logótipo da Universal Pictures foi utilizado pela primeira vez. No entanto, existem registos da existência de um logótipo da empresa em publicidade da década de 1920 e que o mesmo terá sido utilizado em filmes dessa década.

A primeira versão que se conhece do logótipo consiste numa globo feito em plástico, rodeado de estrelas e com um avião a andar à sua volta. Esta versão, em que se pode ouvir o som do avião, terá sido produzida aquando do advento do cinema sonoro, sendo possível vê-lo em filmes do início da década de 1930.

Ao longo dos anos, e de forma a acompanhar as diversas inovações tecnológicas, o logótipo da empresa foi sendo actualizado, nomeadamente com versões a cores, em Cinemascope e, mais recentemente, com uma versão computorizada, embora a versão com o avião apenas tenha sido produzida a preto e branco. Para comemorar o seu 75º aniversário, o estúdio produziu, em 1989, uma versão que utilizou apenas nos filmes distribuídos nesse ano e que incluía um resumo de todas as versões anteriores.

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A história do cinema está cheia de figuras pioneiras, que os tempos esqueceram. Alice Guy-Blaché é uma dessas figuras e cujo contributo foi fundamental para o desenvolvimento do cinema enquanto arte.

Alice Guy-Blaché em plena filmagem

Alice Guy nasceu a 1 de Julho de 1873, em Paris. Filha de pais franceses, que viviam no Chile, Alice viveu os seus primeiros anos com a avó, até os pais regressarem a França, onde viriam a morrer pouco tempo depois.

A nível profissional, Alice Guy começou a sua carreira como secretária de Leon Gaumont, que trabalhava para um fabricante de máquinas fotográficas. Os dois assistiram à primeira sessão de cinema, em 1895, organizada pelos Irmãos Lumiere e quando a empresa onde trabalhavam entrou em dificuldades económicas, Leon Gaumont comprou o seu inventário e formou a Gaumont, que viria a ser uma das mais importantes empresas cinematográficas do mundo. Alice acompanhou Gaumont na nova empresa e, como princial responsável pela produção, o seu trabalho revelou-se inovador, nomeadamente na utilização da cor, do som, dos efeitos especiais e no desenvolvimento da narrativa cinematográfica, cujo melhor exemplo é La Fée Aux Choux (1896), considerado o primeiro filme narrativo da história do cinema. Em 1906, Alice realiza dois outros marcos da sua carreira: La Vie du Christ, a sua primeira longa-metragem e um dos grandes blockbusters da época do cinema mudo, com 25 cenas e cerca de 300 figurantes, e La Fée Printemps, que utiliza efeitos especiais a cores.

Em 1907, Alice Guy casa-se com Herbert Blaché e acompanha o marido quando este, pouco tempo depois de se casarem, é nomeado responsável pela produção da Gaumont nos Estados Unidos. O trabalho em conjunto leva-os formar a sua própria empresa, a Solax Company. Sediada em Nova Iorque, a Solax tornar-se-ia no maior estúdio pré-Hollywood, com instalações de qualidade e que albergavam todas as fases da produção e distribuição cinematográfica. Alice Guy-Blanché foi o grande motor da empresa e, como directora artística, escreveu e realizou grande parte das suas produções. Entre os muitos filmes da artista para a Solax destaque para a curta-metragem A Fool and His Money (1912), considerado o primeiro filme da história do cinema com um elenco totalmente constituído por actores negros.

O declínio da indústria cinematográfica na Costa Este dos Estados Unidos e a mudança do epicentro cinematográfico de Nova Iorque para Hollywood, onde os custos de produção eram mais baratos e cujo bom tempo permitia filmar ao longo de todo o ano, levou ao desaparecimento da Solax Company. Em 1920, Alice Guy-Blaché, já fora da Solax, realiza Tarnished Reputations, que viria a ser o seu último filme. Dois anos mais tarde divorcia-se e regressa a França. Na sua terra natal, Alice Guy-Blaché tenta retomar a sua carreira, mas a dificuldade em provar o seu curriculum, já que poucos ou nenhum dos filmes da Gaumont sobreviveram, levam-na a escreve romances a partir de argumentos cinematográficos e a dar palestras sobre cinema.

Esquecida durante décadas, Alice Guy-Blaché viu o seu trabalho reconhecido em 1955, quando foi condecorada pelo Governo Francês com a Legião de Honra. Nove anos mais tarde regressa os Estados Unidos para viver com uma das suas filhas, falecendo, em 1968, aos 95 anos.

Com uma carreira de mais de 700 filmes, que abrangeram géneros tão diferentes como o drama, o western e as biografias, o trabalho de Alice Guy-Blaché foi extremamente importante para o desenvolvimento da Sétima Arte, ajudando-a a transformar-se técnica e esteticamente.

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