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As histórias da história d a Sétima Arte

Sallie Gardner at a Gallop

Imagem: Eadweard Muybridge, Public domain, via Wikimedia Commons

Um cavalo a galope coloca as 4 patas simultaneamente no ar? Embora banal nos dias de hoje, a questão era bastante pertinente na segunda metade da década de 1870 e a sua resolução viria a transformar a sociedade, dando origem às “imagens em movimento” e ao cinema propriamente dito.

Eadweard Muybridge, um fotógrafo profissional com trabalho reconhecido em imagens paisagísticas, foi contratado pelo, então, Governador da Califórnia e amante de cavalos Leland Stanford, para ajudar a resolver uma aposta, que tinha por base a referida dúvida equina. Muybridge realizou, então, uma primeira experiência em 1877, cujo resultado foi recusado devido a suspeitas de manipulação das fotografias, aquando da sua revelação. O fotógrafo não desistiu e um ano depois idealizou nova experiência: ao longo de um percurso, colocou máquinas fotográficas (12 ou 24, consoante as fontes) espaçadas regularmente, que eram accionadas pelo cavalo a galope, através de fios. De forma a tornar o processo transparente, Muybridge convidou jornalistas a assistirem à experiência e tinha no local os meios para revelar as fotografias no momento. O sucesso da experiência conseguiu demonstrar que um cavalo a galope mantém, a espaços, as quatro patas no ar e Standford ganhou a aposta.

Por muito importante que a experiência fosse, ela apenas se torna importante para a história do cinema em 1879, quando Muybridge adaptou as fotografias de forma a puderem ser vistas como uma sequência animada, através do seu projector Zoopraxiscope. Sallie Gardner at a Gallop tornou-se, assim, no primeiro “filme” da história. Embora a sua natureza seja discutível, a verdade é que a sequência de imagens foi determinante na concepção do cinema e influenciou diversas áreas, como a fotografia, a ciência e mesmo a arte (o trabalho que Muybridge continuou a desenvolver na captura do movimento humano e animal ajudou artistas a compreender e melhor representar a noção de movimento).

Embora o objectivo de Muybridge fosse o de resolver um problema científico, o seu trabalho foi importante para o cinema, já que, quer, a sequência de fotografia quer o Zoopraxiscope, levaram ao Kinestescope, que, por sua vez, levou ao cinematografo e por ai adiante, até ao cinema de hoje. A influência do trabalho de Eadweard Muybridge é tal, que ainda hoje deixa marca no cinema (digital) moderno, como se pode ver em Matrix (1999): o filme dos irmãos Wachowski utiliza a mesma ideia base para construir as sequências em ultra câmara lenta, que tornaram o filme um sucesso.

The End

Pancho Villa e o Cinema

Imagem: Bain News Service. Fotografo desconhecido. Domínio público, via Wikimedia Commons

O cinema está recheado de histórias incríveis e nenhum outro período é tão fértil como o do cinema mudo. Uma dessas histórias é a do revolucionário mexicano Pancho Villa, que assinou um contracto com a Mutual Film Corporation para a venda dos direitos cinematográficos da revolução mexicana.

No início do século XX, o México era liderado pelo presidente Porfirio Diaz, cuja governação oprimia o povo e levou à insurreição em 1910. Uma das facções revolucionárias era comandada pelo general Pancho Villa, que dominava o norte do país e a fronteira com os Estados Unidos. Como excelente estratega que era, Villa, cujo nome verdadeiro era José Doroteo Arango Arámbula, cedo se apercebeu da importância dos meios de comunicação e utilizou-os para promover a sua imagem, nomeadamente nos Estados Unidos. É neste contexto que Villa assina um contracto, em 1914, com a Mutual para a cedência dos direitos cinematográficos das suas acções militares, no valor de 25 mil dólares mais parte dos lucros do filme.

Na época, a popularidade do cinema nos Estados Unidos crescia a cada dia que passava e todos os filmes eram poucos para um público ávido de novidades cinematográficas. A par de melodramas e comédias, os newsreels com imagens de guerra eram também bastante populares e, neste contexto, o contracto entre a empresa cinematográfica americana e o revolucionário mexicano surge naturalmente.

Ao longo dos anos, muitas histórias têm sido escritas sobre o contracto, nomeadamente sobre as suas “estranhas” cláusulas. Uma delas supostamente referiria que as batalhas apenas poderiam decorrer entre as 9h da manhã e as 16h da tarde, uma vez que era o período ideal para se filmar. Mais, seria o operador de câmara que, ao gritar “acção!”, daria início aos ataques de Villa. Outra história que chegou até aos nossos dias é a da Mutual ter “vestido” Villa e os seus homens com guarda-roupa de filmes, já que os trajes dos mexicanos não tinham impacto cinematográfico suficiente. Estas histórias são isso mesmo e o único exemplar existente do contracto (que se encontra num museu no México) nada refere sobre estas cláusulas.

O que se sabe verdadeiramente é que as condições de filmagem não foram fáceis e o actor e realizador Raoul Walsh (A Pista dos Gigantes), que a Mutual enviou para o México, viu-se obrigado a encenar as cenas de batalha, utilizando os próprios guerreiros de Villa. No entanto, nem assim a Mutual ficou muito entusiasmada com as bobines que chegavam do México. Uma vez que as imagens não eram muito diferentes do que as conseguidas noutras guerras, sem contrato, a empresa alterou a sua estratégia e decidiu produzir um filme de ficção sobre a vida de Pancho Villa (The Life of General Villa) e onde foram incorporadas as imagens já filmadas. Com as novas indicações da Mutual, Walsh regressou a Los Angeles, onde completou o filme com cenas rodadas em estúdio e interpretou um jovem Pancho Villa.

The Life of General Villa, que está dado como perdido, estreou em Nova Iorque no dia 14 de Maio de 1914 e foi bem recebido, quer pela crítica, quer pelo público. No entanto, é referido como um banal melodrama, que vale mais pela sua perspectiva histórica do que pela sua mais-valia artística.

The End

Alice Guy-Blaché, Pioneira da Sétima Arte


Foto: Apeda Studio New York, Public domain, via Wikimedia Commons

A história do cinema está cheia de figuras pioneiras, que os tempos esqueceram. Alice Guy-Blaché é uma dessas figuras e cujo contributo foi fundamental para o desenvolvimento do cinema enquanto arte.

Alice Guy nasceu a 1 de Julho de 1873, em Paris. Filha de pais franceses, que viviam no Chile, Alice viveu os seus primeiros anos com a avó, até os pais regressarem a França, onde viriam a morrer pouco tempo depois.

A nível profissional, Alice Guy começou a sua carreira como secretária de Leon Gaumont, que trabalhava para um fabricante de máquinas fotográficas. Quando o negócio entrou em dificuldades económicas, Gaumont, em conjunto com outras figuras, entre elas Gustave Eiffel, comprou o inventário da empresa e formou, em 1895, a Gaumont et Cie, que viria a ser uma das mais importantes empresas cinematográficas do mundo. Alice Guy acompanhou Gaumont na nova empresa e ai toma conhecimento com o fascinante mundo das "imagens em movimento", tendo assistido à demonstração realizada pelos Irmãos Lumière a 2 de março de 1895, onde exibiram o seu primeiro filme A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Lumière. Deslumbrada com o novo meio, Alice Guy decide aprender tudo o que podia sobre o Cinema e pede autorização para filmar a Leon Gaumont. Pouco tempo depois apresenta La Fée Aux Choux (1896), considerado o primeiro filme narrativo da história do cinema. Com o sucesso do filme, Alice Guy torna-se também responsável pela produção da Gaumont e o seu trabalho revelou-se inovador, nomeadamente na utilização da cor, do som, dos efeitos especiais e no desenvolvimento da narrativa cinematográfica. Em 1906, Alice Guy realiza dois outros dois marcos da sua carreira: La Vie du Christ, a sua primeira longa-metragem e um dos grandes blockbusters da época do cinema mudo, com 25 cenas e cerca de 300 figurantes, e La Fée Printemps, que utiliza efeitos especiais a cores.

Em 1907, Alice casa com Herbert Blaché, que, pouco depois, foi nomeado responsável pela produção da Gaumont nos Estados Unidos. Alice acompanha o marido para o outro lado do Atlântico e, após trabalharem juntos na filial norte-americana, o casal decide formar a sua própria empresa: a Solax Company. Sediada em Nova Iorque, a Solax tornar-se-ia no maior estúdio pré-Hollywood e onde Alice continuou o seu trabalho como directora artística, escrevendo e realizando grande parte da produção da empresa.

Em 1922, Alice Guy-Blaché realiza Tarnished Reputations, que viria a ser o seu último filme e dois anos depois divorcia-se, regressando a França. Ai tenta retomar a sua carreira, mas a dificuldade em provar o seu curriculum, já que poucos ou nenhum dos filmes da Gaumont sobreviveram, levam-na a escreve romances a partir de argumentos cinematográficos e a dar palestras sobre cinema. Esquecida durante décadas, Alice Guy-Blaché viu o seu trabalho reconhecido em 1955, quando foi condecorada pelo Governo Francês com a Legião de Honra. Nove anos mais tarde regressa aos Estados Unidos para viver com uma das suas filhas, falecendo em 1968.

Com uma carreira de mais de 700 filmes, a maioria desaparecidos, que abrangeram géneros tão diferentes como o drama, o western e as biografias, o trabalho de Alice Guy-Blaché permitiu o desenvolvimento do cinema, ajudando-o a transformar-se técnica e esteticamente.

The End

O grande erro de Buster Keaton

Foto: MGM, Public domain, via Wikimedia Commons

Um dos grandes comediantes do cinema mudo, Buster Keaton cometeu, segundo o próprio, o maior erro da sua vida quando, em 1928, decidiu assinar contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), um dos maiores estúdios de Hollywood.

Com raízes familiares no espetáculo de vaudeville, Buster Keaton ganhou sucesso graças à sua comédia física, tendo tornado-se um dos três grandes comediantes do cinema mudo, a par de Charlie Chaplin e Harold Lloyd. O sucesso de Keaton deveu-se, também, à sua paixão e compreensão pelo meio em que trabalhava: o actor cedo se apaixonou pelas "imagens em movimento" e em aprender como tirar o melhor proveito do meio. O facto de ter, desde 1920, a sua própria produtora (Buster Keaton Productions) permitiu-lhe liberdade para construir os seus filmes de forma meticulosa e sem pressões. Infelizmente, um conjunto de fracassos de bilheteira levou ao fecho da empresa e contra os conselhos de Chaplin e Lloyd, Keaton decide enveredar pela segurança de trabalhar num grande estúdio e, acreditava, concentrar-se nos próprios filmes. No entanto, a realidade veio dar razão aos seus "rivais".

O primeiro filme de Buster Keaton para a MGM foi O Homem da Manivela, em 1928, e revelou-se ser o último grande filme do actor. Embora produzido na grande máquina de produção que era a MGM da altura, Keaton ainda conseguiu ter controlo e autonomia para produzir um filme à sua semelhança e que é um hino ao meio que tanto amava: o cinema. O filme foi um sucesso de bilheteira e usado pelo estúdio, nos anos seguintes, como um exemplo de comédia bem construída (de tal forma, que o negativo foi tantas vezes exibido que ficou danificado e parte do filme encontra-se desaparecido). Infelizmente, a MGM retirou as conclusões erradas do sucesso de O Homem da Manivela e continuou a ver Keaton apenas como um "palhaço triste", interpretando mal o seu estilo de comédia. Para além disso, a MGM apenas viu Keaton como actor e não como artista completo, que podia contribuir mais para o processo criativo e técnico dos filmes. O filme seguinte, O Figurante (1929), é reflexo disso mesmo: embora tenha sido uma ideia do actor, a MGM dispensou a colaboração da sua equipa criativa, providenciou o argumento, designou um produtor pouco ávido para a comédia e, contrariando o actor, manteve o filme mudo. Embora O Figurante tenha sido um sucesso comercial, a sua produção revelou-se uma verdadeira guerra entre o actor e o estúdio, tendo marcado a relação entre ambos.

Se em O Homem da Manivela e O Figurante, ainda é possível deslumbrar o génio de Keaton, curiosamente os seus dois últimos filmes mudos, nas restantes produções da MGM, o actor perde-se em filmes menores, com argumentos fracos. Embora estes filmes tenham sido sucessos comerciais, o estúdio cansou-se de aturar o actor e libertou-o em 1933.

Após a MGM, Buster Keaton continuou a trabalhar, em filmes e na televisão, mas sempre como contratado e sem conseguir mostrar o seu talento por completo. Com o passar dos anos Keaton pensou que os seus filmes tinham sido esquecidos e só no final da vida, graças a uma retrospetiva da Cinemateca Francesa, em 1962, e a um tributo do Festival de Veneza, em 1965, é que se apercebeu que os seus filmes eram acarinhados e não estavam perdidos. No entanto, para ele, "os aplausos foram bons, mas chegaram tarde". Buster Keaton viria a falecer no ano seguinte.

The End