Pagos a Dobrar (1944)

Pagos a Dobrar (1944)

O terceiro filme do realizador Billy Wilder é um dos melhores exemplos do film noir, onde se pode encontrar todas as características que definem o género e o primeiro a transformar os vilões em protagonistas românticos.

Pagos a Dobrar é baseado no romance policial de James M. Cain, que por sua vez tem por base um caso verídico ocorrido em 1927. Embora o livro só tenha sido publicado em 1943, a história (que surgiu primeiro em “episódios” numa revista) foi submetida à administração do Código de Produção para possível adaptação cinematográfica em 1935. A resposta foi que a história violava diversas regras do Código e a possível produção cinematográfica seria, muito provavelmente, censurada. A resposta foi enviada a diversos estúdios, entre eles a Warner Bros., a Columbia Pictures e a Paramount Pictures, mas um posterior argumento recebeu a aprovação do Código e a Paramount avançou com a produção de Pagos a Dobrar.

Mesmo com a “autorização” do Código de Produção, Charles Brackett, habitual colaborador de Wilder, preferiu abandonar o projecto por considerar a história demasiado dura e, assim, o realizador viu-se obrigado a arranjar outro argumentista. A escolha recaiu em Raymond Chandler, escritor de policiais, que tinha Cain em má consideração e não tinha qualquer experiência em escrita de argumentos. A colaboração entre Chandler e Wilder foi atribulada, a ponto de o primeiro a considerar agonizante, mas o resultado é um argumento genial, com personagens bem definidos e diálogos rápidos e acutilantes.

O argumento final difere um pouco da história original e é graças às alterações introduzidas por Wilder e Chandler, com a devida concordância de Cain, que o resultado final é um sucesso. As principais alterações foram a introdução de flashbacks e de um narrador )Chandler via este como alguém distanciado da história, enquanto Wilder acreditava que ser o personagem principal a narrar a sua própria confissão dava maior força à história). Outra grande alteração deu-se já na fase de testes do filme: Wilder decidiu alterar o final, deixando de fora a cena (da qual só existem alguns fotogramas) do personagem principal a ser executado na câmara de gás, seguindo a recomendação do Código de Produção, que a considerava de mau gosto e que muito provavelmente seria censurada.

Barbara Stanwyck, que tinha trabalhado no filme Bola de Fogo co-escrito por Billy Wilder, foi a primeira escolha para interpretar a atrevida Phyllis Dietrichson. A actriz, habituada a papeis de heroína, ficou pouco à vontade em interpretar uma assassina impiedosa e conversou com Wilder sobre os seus receios, tendo este lhe perguntado: “És um rato ou uma actriz?”. Stanwyck, conhecida por nunca recusar um desafio no que diz respeito à sua carreira, aceitou o repto do realizador e transformou a vilã num dos personagens mais memoráveis da sua carreira e da história do cinema (que resiste, inclusive, à terrível peruca loira que Wilder obrigou a actriz a usar, de forma a realçar a personagem, e que levou um dos executivos da Paramount a comentar que a actriz parecia o antigo presidente norte-americano George Washington).

Ao contrário de Stanwyck, Fred MacMurray não foi a primeira escolha para interpretar o papel de vendedor de seguros Walter Neff. Alan Ladd, George Raff e Dick Powell foram alguns dos nomes sondados, mas por razões várias acabaram por não participar em Pagos a Dobrar. Wilder lembrou-se, então, de MacMurray, mais conhecido como actor de comédias e romances. Ao ler o argumento, o actor teve os mesmos receios que Stanwyck, mas Wilder convenceu-o pessoalmente a aceitar o papel e o actor, anos mais tarde, revelou que Walter Neff foi o personagem que mais gostou de interpretar.

Para o terceiro vértice do triângulo que compõe a história, Wilder voltou a confiar num actor mais conhecido noutro tipo de papéis: Edward G. Robinson. O actor era, na altura, mais conhecido por interpretar personagens que viviam à margem da lei, nomeadamente os assassinos que interpretou nos filmes de gangsters da Warner Bros. e que teve o ponto alto em O Pequeno César. Uma vez mais, Wilder tinha razão e Robinson provou que podia interpretar personagens mais dramáticos. A cena final de Pagos a Dobrar, onde Keyes e Neff mais parecem pai e filho, é bem prova disso.

As filmagens de Pagos a Dobrar demoraram apenas 4 semanas (entre 27 de Setembro e 24 de Novembro de 1943), repartidas entre Los Angeles (interiores e exteriores) e a cidade de Phoenix, no Arizona, devido a restrições de electricidade em L.A. O filme foi filmado como se de um newsreel se trata-se, de forma a manter o realismo, realçado pelo excelente trabalho do director de fotografia John Seitz, que com o uso de luz de baixa densidade e fumo consegue transmitir um ambiente realístico, que encaixa nas necessidades maléficas dos dois protagonistas.

O filme estreou apenas em 7 de Setembro de 1944 e revelou-se um verdadeiro sucesso comercial e de crítica, tendo sido nomeado para sete Óscares: melhor filme, melhor realizador, melhor actriz principal, melhor argumento, melhor fotografia (para filmes a preto e branco), melhores efeitos sonoros e melhor música (para um filme dramático).

Em 1950, Stanwyck e MacMurray voltaram a interpretar os mesmos personagens, na encenação radiofónica de Pagos a Dobrar e em 1954 a estação de televisão NBC produz um telefilme baseado na história de Cain, tal como aconteceu em 1973 num novo telefilme exibido na ABC. Em 1981, Noites Escaldantes, realizado por Lawrence Kasdan e interpretado por William Hurt e Kathleen Turner, utiliza uma história muito semelhante a Pagos a Dobrar, mas sem a qualidade deste e, em 1986, John Cassavetes realiza uma paródia ao filme, intitulada A Grande Burla, interpretado por Peter Falk e Beverly D’Angelo.

Embora Pagos a Dobrar não seja o primeiro film-noir da história do cinema, o seu estilo frio, estilizado e o seu sentido de humor negro, marcaram definitivamente o género e o filme contribuiu para o surgimento, no pós-guerra, de um ambiente cinematográfico urbano, cheio de sombras, reflexo de um mundo de decepção e traição, onde vivem personagens corruptos e onde a femme fatale tem um lugar obrigatório.


Double Indemnity
Paramount Pictures. EUA, 1944, 107m, film noir
Realizador: Billy Wilder. Argumento: Billy Wilder e Raymond Chandler, baseado na história de James M. Cain. Actores: Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson, Byron Barr, Porter Hall, John Philliber

Um vendedor de seguros envolve-se com uma mulher casada e os dois planeiam matar o marido desta para receberem o seu seguro de vida.