“Le cinéma est-il plus important que la vie?”

Truffaut apaixonou-se pelo cinema desde muito jovem, assistindo a filmes de uma forma obsessiva, escrevendo apaixonadamente sobre eles, anos mais tarde nos Cahiers du Cinema, e criando-os de uma forma inovadora e refrescante já como realizador. Uma ideia que sempre o acompanhou ao longo da vida foi realizar um filme sobra a realização cinematográfica e voltava sempre a esse desejo cada vez que iniciava a realização de um filme. Durante a rodagem de As Duas Inglesas e o Continente, nos estúdios Victorine, em Nice, Truffaut deu-se conta de um velho cenário que seria ideal para a sua ideia e durante a segunda metade de 1971 o realizador, com a ajuda de Jean-Louis Richard e Suzanne Schiffman, escreveu o argumento de A Noite Americana. Este mais não é do que uma resposta àquela questão: “é o cinema mais importante que a vida?”.

Como não poderia deixar de ser, A Noite Americana está recheada de referências cinematográficas, importantes na vida de Truffaut, e que funcionam como homenagem à sétima arte. Essa homenagem começa logo no título, já que La nuit américaine é o termo francês para a técnica cinematográfica que permite filmar durante o dia como se fosse noite, utilizando filtros especiais. A homenagem prossegue durante todo o filme, com referências a Hitchcock, Mundo a seus Pés, Lillian e Dorothy Gish, entre muitas outras. Esta paixão pela sétima arte vai mais além, com Truffaut a demonstrar a loucura da realização de um filme e como através desse caos é possível ser-se feliz.

Mais uma vez, Jean-Pierre Aumont protagoniza um filme de Truffaut, que contribui, tal como o restante elenco, para a riqueza do filme. No entanto, é de destacar a beleza de uma jovem Jacqueline Bisset. Até este filme, a actriz apenas tinha interpretado pequenos e decorativos personagens e sentia-se insegura em participar em A Noite Americana, particularmente em falar francês. Truffaut assegurou a actriz que tal insegurança era importante para a sua personagem e o resultado foi um desempenho excelente por parte da Jacqueline Bisset. A dificuldade que Truffaut sempre sentiu em separar a sua vida pessoal da sua arte levou-o a ter relações com algumas das protagonistas dos seus filmes e Bisset não foi excepção. Os dois começaram um romance durante a rodagem de A Noite Americana, que se prolongou por vários anos e resistiu à ida de Bisset para os Estados Unidos.

Estreado no Festival de Cannes de 1973, onde foi exibido fora da competição oficial, A Noite Americana foi bem recebido pelo público do certame, mas o mesmo já não se pode dizer da estreia do filme em Paris. A fraca recepção na capital francesa não fez prever o sucesso internacional que viria a ter e os diferentes prémios que viria a receber, entre eles o Óscar de melhor filme estrangeiro. A Noite Americana foi ainda nomeado nas categorias de  melhor actriz secundária, melhor realizador e melhor argumento: um feito, considerando que se trata de um filme estrangeiro.


La nuit américaine
Films du Carrose. França, 1973, 115 min., drama
Realizador: François Truffaut. Argumento: Jean-Louis Richard, Suzanne Schiffman e François Truffaut. Actores: Jean-Pierre Aumont, Jacqueline Bisset, Valentina Cortese, Alexandra Stewart, François Truffaut. Estreia em Portugal:  10 de janeiro 1974

As atribulações vividas por um realizador durante a rodagem de um filme.