Metrópolis (1927)

O mais emblemático filme de ficção científica deve-se à inspiração do realizador Fritz Lang que se baseou na paisagem citadina de Nova Iorque da década de 20. Segundo Lang, a inspiração inicial surgiu em 1924 aquando de uma visita à cidade americana em que o realizador e o produtor Erich Pommer foram obrigados a permanecerem no barco porque eram considerados inimigos pelas autoridades americanas. A visão que Lang tinha era a de uma rua cheia de anúncios luminosos, em constante movimento e com uma vida própria: um cenário novo e diferente do da Europa. Lang contou, ao longo dos tempos, várias versões desta história, mas dois autores vieram posteriormente a por em causa a sua veracidade e, segundo eles, o embrião para o argumento terá nascido muitos meses antes dessa viagem.

O argumento foi escrito por Lang e pela sua esposa, Thea von Harbou, que trabalhava ao mesmo tempo no argumento e no livro. No entanto, as semelhanças entre ambos são mínimas. Embora tenham colaborado frequentemente, Lang e Harbou acabaram por se separar quando o realizador decidiu abandonar a Alemanha Josef Goebbels, Ministro da Propaganda Nazi e que tinha censurado o que seria o último filme de Lang na Alemanha (Das Testament des Dr. Mabuse), chamou o realizador à sua presença e comunicou-lhe que Hitler tinha adorado Metropolis e que lhe iria ser atribuída a distinção de ariano honorário. Lang partiu nessa mesma noite para Paris, deixando para trás a sua esposa de quem viria a divorciar-se.

Erich Pommer, director dos estúdios UFA, gostou da visão do futuro de Lang e autorizou a produção mais cara do cinema europeu, que envolveu cerca de 27 mil figurantes, 310 dias de rodagem e dezenas de efeitos especiais da responsabilidade de Karl Freund. Visualmente, o filme é um dos marcos da história da sétima arte, não só pelos seus efeitos revolucionários para a época, mas principalmente pela sua visão do futuro, onde é possível identificar um design moderno e altamente tecnológico, destacando-se o trabalho da escola Bauhaus.

A forma tirânica como Fritz Lang tratava os seus actores ficou bem conhecida e talvez por isso o realizador preferisse utilizar actores com que nunca tenha trabalhado anteriormente. A rodagem de Metropolis não fugiu à regra e Brigitte Helm, a actriz de 17 anos que interpretou o papel de Maria, sofreu na pele o temperamento do realizador, que a obrigou a ensaiar o seu papel até à exaustão e que quase ia morrendo por causa do pesado fato de madeira e plástico que teve que utilizar. Embora a actriz tenha reconhecido, anos mais tarde, que a rodagem de Metropolis foi a pior experiência da sua vida, a sua interpretação é memorável e o robot Maria é, hoje, um dos ícones da sétima arte. No sentido oposto, Gustav Frohlich, que interpreta o papel de Freder, tem uma interpretação muito fraca e nunca foi visto como um grande actor.

A banda sonora do filme esteve a cargo de Gottfried Huppertz, que conduziu a orquestra sinfónica que actuou na estreia do filme. A música balança ente o romantismo, transposições de conhecidas melodias (incluindo a Marselhesa) e um tom mais pesado a acentuar o ritmo moderno de uma cidade. A banda sonora teve várias versões, incluindo uma para piano especialmente concebida para cinemas pequenos, mas a original foi editada em 78 discos, que incluía uma introdução falada do realizador. Actualmente apenas um dos discos sobrevive e só recentemente foi editada uma nova interpretação sinfónica com a mais completa versão disponível até hoje.

Originalmente com uma duração de 3 horas e 30 minutos, Metrópolis revelou-se um autentico desastre de bilheteira, tendo sido “retalhado” para cerca de 2 horas e 40 minutos aquando da sua estreia nos Estados Unidos. A versão original de Lang desapareceu e ao longo dos tempos foram feitas diversas reconstituições do filme, a mais famosa levada a cabo em 1984 pelo compositor Giorgio Moroder, que adquiriu os direitos do filme e o remontou, acrescentando legendas, cenas pintadas e uma nova e muito criticada banda sonora (que incluía canções dos Queen, Bonnie Tyler, entre outros). Esta versão tem cerca de 87 minutos e transformou-se num sucesso, quer nos cinemas, quer em vídeo.

Em 1987, o arquivo cinematográfico de Munique descobre novo material do filme e realiza uma nova versão. Por ocasião do 75º aniversário do filme, um conjunto de entidades (entre arquivos alemães, fundações e cinematecas europeias) realiza a mais completa restauração do filme feita até ai. No entanto, esta é uma versão incompleta e só com a descoberta, em 2008, de uma cópia original em 16mm, que estava no Museu del Cine Pablo, em Buenos Aires, é que foi possível restaurar a versão original de Fritz Lang.

Ao longo do tempo, Metropolis tem sido alvo de inúmeras interpretações e já foi visto como uma alegoria do Fascismo, Comunismo, Cristianismo e o robot Maria tem sido visto tanto como uma prostituta como o símbolo do feminismo. No entanto, todas estas inúmeras interpretações apenas revelam a importância do filme na cultura moderna e a influência que tem tido em gerações de artistas, ligados ao cinema e não só. Talvez o que mais impressiona no filme é o retrato da eterna luta de classes entre pobres e ricos e uma visão do futuro que, ainda hoje, é de uma riqueza visual impressionante e que poucos conseguiram igualar.


Metropolis
Universum Film A.G. (UFA). Alemanha, 1927, 153m, ficção cientifica
Realizador: Fritz Lang. Argumento: Fritz Lang e Thea von Harbou (baseado no livro deste). Actores: Alfred Abel, Gustav Fröhlich, Brigitte Helm, Rudolf Klein-Rogge, Fritz Rasp, Theodor Loos, Heinrich George. Estreia em Portugal: 7 de Abril 1928 (S. Luiz)

No futuro, os humanos encontram-se divididos em dois grupos: os pensadores (que planeiam, mas não sabem como as coisas trabalham) e os trabalhadores (que alcançam os objectivos). Embora separados e incompletos por si só, no conjunto os grupos funcionam como um todo. Um dia, um dos pensadores visita os trabalhadores e fica surpreso com o que vê.