História do Cinema: 1950-1959

Nouvelle Vague

A Nova Vaga

A década de 50 é marcada pelo acentuar das mudanças provocadas pela II Grande Guerra e revela-se propícia para o desenvolvimento de uma nova mentalidade cinematográfica. Se na Europa tentava-se reconstruir cinematografias com a ajuda do estado, no outro lado do Atlântico a industria cinematográfica enfrentava o estado, nomeadamente nas investigações do Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas e na decisão do Supremo Tribunal de obrigar os estúdios de Hollywood a desfazerem-se das suas salas de cinema.

Iniciada em 1948, o Comité investigou dezenas de profissionais da industria cinematográfica suspeitos de actividades comunistas. Todos os que revelassem ter tido alguma ligação ao partido comunista (verdadeiramente ou resultado de denuncias) e os que que se recusavam a colaborar com o Comité, eram presos, sujeitos a multas e impedidos de trabalhar na industria. Mesmo após o fim da actividade do Comité, em meados da década, a maioria dos profissionais banidos continuavam sem conseguir trabalhar e demorou décadas até que a industria colmata-se as injustiças feitas

A venda das salas de cinema que os estúdios possuiam levou a que procurarem outras fontes de receitas e o aparecimento da televisão foi, ao mesmo tempo, uma bênção e uma dor de cabeça. Se por um lado, a televisão “roubou” espectadores às salas de cinema, também permitiu aos estúdios ganharem dinheiro com a venda de filmes para o pequeno ecrã e alguns aproveitaram as suas estruturas para produzirem conteúdos televisivos.

Para combater a fuga de espectadores das salas de cinema, os estúdios começaram a apostar em avanços tecnológicos, como os filmes a três dimensões e em sistemas de projecção de grande formato. Se os filmes a três dimensões, que necessitavam de uns óculos especiais para serem apreciados, não passaram de uma curiosidade, já os sistemas de projecção de grande formato, como o CinemaScope, contribuíram para o surgimento do cinema espectáculo. Assim, chegam ao grande ecrã filmes como Os 10 Mandamentos, A Volta ao Mundo em 80 Dias, Serenata à Chuva e Um Americano em Paris: verdadeiros acontecimentos cinematográficos, que marcaram a década e são, ainda hoje, marcos da história da sétima arte.

Mas dos estúdios não saíam apenas filmes espectaculares e obras como Há Lodo no Cais, O Comboio Apitou Três Vezes e A Desaparecida reflectem uma sensibilidade mais realista e influenciada pelo pós-guerra.

Após anos de quase obscuridão, a Europa vê as suas cinematografias recuperar e a década de 50 revelou-se bastante criativa e marcou uma ruptura com o passado. A França lidera essa mudança com o surgimento, no final da década, da Nouvelle Vague. Tendo por base uma visão cinematográfica mais livre e realista, onde o realizador é o autor da obra cinematográfica, o movimento deu a conhecer realizadores como François Truffaut, Alain Resnais, Jean-Luc Godard, Roger Vadim, entre outros. Grande parte destes realizadores começou as suas carreiras na revista Cahiers du Cinéma e os seus trabalhos, como Hiroshima, meu Amor, Os 400 Golpes, E Deus Criou a Mulher, entre outros, reflectem a própria sociedade em que vivem, muito longe da fantasia importada de Hollywood.

À semelhança do que se passava em França, também o cinema italiano sofre uma transformação graças a realizadores como Michelangelo Antonioni, Bernardo Bertolucci e Federico Fellini, cujos trabalhos reinventaram o cinema italiano, dando-lhe uma projecção internacional.

Na Suécia, o realizador Ingmar Bergman tem uma das suas décadas mais produtivas realizando Morangos Silvestres, O Sétimo Selo e Sorrisos de Uma Noite de Verão, que o consagram internacionalmente.

Génerico de "A Túnica", o primeiro filme a utilizar o sistema de ecrã grande CinemaScope

Génerico de “A Túnica”, o primeiro filme a utilizar o sistema de ecrã grande CinemaScope

Timeline, Década 1950-1959

1950

  • A Warner Bros., a Lowe’s, a RKO Radio Pictures e a 20th Century Fox são obrigadas a venderem as suas salas de cinema.
  • A Ilha do Tesouro é a primeira longa-metragem de acção (não-animada) dos estúdios Disney.
  • Sob o comando do produtor Arthur Freed, os musicais da Metro-Goldwyn-Mayer atingem o ponto alto durante a década.
  • O western é outro género cinematográfico em alta durante a década, destacando-se obras de realizadores como John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann, entre outros.
  • A França produz, durante a década, uma média de 110 filmes por ano.
  • Devido à escassez de fundos e a uma política restritiva, os filmes da Alemanha Ocidental são, durante os anos 50, muito limitados a nível criativo.
  • São criadas, no Japão, duas novas produtoras: Shin-Toho e a Toei, que se tornariam nas duas mais importantes do país.
  • Reflectindo o período pós-independência que o país vive durante os anos 50, os melodramas são muito populares na Índia.
  • O México produz, durante os primeiros anos da década, uma média de 150 longas-metragens por ano.
  • O governo inglês cria um fundo de apoio à produção cinematográfica, mas sem grande sucesso.
  • Até à morte de Joseph Stalin, em 1953, a produção russa é dominada por filmes anti-ocidente.
  • Muito embora um alto imposto sobre o entretenimento que limita a produção cinematográfica na Suécia, o país produz aclamados dramas domésticos, entre eles, os realizados por Ingmar Bergman.

1951

  • O Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas continua as suas investigações contra alegados comunistas, usufruindo das denúncias de membros da comunidade cinematográfica sobre colegas.
  • Deixa de ser utilizada a película à base de nitrato de celulose, uma vez que a sua instabilidade provocou a destruição de metade dos filmes produzidos nos Estados Unidos.
  • O Código de Produção, que rege a produção dos estúdios de Hollywood, passa a incluir as drogas e o aborto como temas proibidos.
  • Louis B. Mayer demite-se da chefia da Metro-Goldwyn-Mayer.
  • Marilyn Monroe assina um contracto de longa duração com a 20th Century Fox.
  • Maurice Chevalier é proibido de entrar nos Estados Unidos devido a um suposto apoio a grupos comunistas.
  • É testada, em Chicago, uma versão de televisão paga, cujos clientes tinham direito a ver filmes novos.
  • A Columbia Pictures cria a Screen Gems para produzir programas de televisão.
  • Os jornalistas André Bazin e Jacques Doniol-Valcroze criam, em França, a revista Cahiers du Cinéma.
  • Rashmon ganha o principal prémio do Festival de Veneza e relança a industria cinematográfica japonesa.

1952

  • Nos Estados Unidos, o número de espectadores atinge o valor mínimo de 51 milhões, contra os 90 milhões em 1948.
  • Os estúdios americanos tentam combater a ameaça da televisão com “truques tecnológicos”, como os filmes a três dimensões e o processo de ecrã de grande formato Cinerama. Bwana Devil foi o primeiro filme em 3D e necessitava de óculos especiais para ser apreciado. This is Cinerama foi o primeiro filme a utilizar a nova tecnologia desenvolvida pela Paramount Pictures, tendo arrecadado 32 milhões de dólares aquando da sua (limitada) estreia.
  • A Warner Bros. e a 20th Century Fox abandonam a produção de filmes B.
  • Nas audiências do Comité de Investigação de Actividade Anti-Americanas, o realizador Elian Kazan revela que ele e o escritor Clifford Odets são comunistas.
  • A popularidade de Marilyn Monroe aumenta após aparecer nua num calendário e de ser tema de capa da revista Life.
  • James Stewart é um dos primeiros actores a receber parte dos lucros de um filme.
  • No Canada, a região do Quebec é a única com produção cinematográfica consistente durante a década.
  • A vida contemporânea e problemas pessoais são temáticas recorrentes na produção cinematográfica da Alemanha do Leste desde o início da década.
  • Com a revolução nacional, ocorrida neste ano, os filmes egípcios reflectem a realidade social.

1953

  • O processo de ecrã largo CinemaScope faz a sua estreia com o épico A Túnica, sendo anunciado como “o milagre do entretenimento moderno que pode ser visto sem o uso de óculos”.
  • A cerimónia de atribuição dos Óscares é transmitida pela primeira vez na televisão.
  • Marilyn Monroe é tema de capa e das páginas centrais da revista Playboy.
  • A Associação de argumentistas permite que os nomes de profissionais suspeitos de actividades comunistas sejam retirados da ficha técnica dos filmes.
  • A co-produção de filmes entre os Estados Unidos e países europeus torna-se uma prática comum durante a década.
  • O cinema italiano renasce do declínio do neo-realismo graças ao trabalho de realizadores como Federico Fellini e Michelangelo Antonioni.

1954

  • Howard Hughes adquire a totalidade das acções da RKO Radio Pictures e torna-se no primeiro particular a deter a totalidade de um estúdio de cinema.
  • A RKO vende a sua colecção de filmes a canais de televisão e, nos anos seguintes, outros estúdios seguem o mesmo caminho.
  • Os filmes ingleses provenientes dos estúdios Ealing, Korda e Rank são os primeiros a passarem na televisão americana.
  • Num artigo da revista Cahiers du Cinéma, o crítico francês François Truffaut introduz o termo “política de autor” e altera a perspectiva como é vista a crítica cinematográfica.
  • O primeiro filme da trilogia Pokolenie, de Andrzej Wajda, dá ínicio à revitalização do cinema polaco.
  • Após a morte de Stalin, a União Soviética começa a produzir mais filmes de carácter humanista.

1955

  • James Dean morre num acidente de automóvel, pouco depois de ter rodado o seu terceiro filme, O Gigante.
  • A Warner Bros. começa a produzir programas de televisão.
  • A Columbia Pictures aluga os seus filmes, produzidos antes de 1948, a canais de televisão.
  • Charlie Chaplin vende as acções que detinha da United Artists. Mary Pickford, uma das fundadoras do estúdio conjuntamente com Chaplin, tenta adquiri-las, mas é ultrapassada por Samuel Goldwyn.
  • O estúdio inglês Ealing fecha as suas portas.
  • Satyajit Ray estreia Pather Panchali, o primeiro filme da trilogia Apu.

1956

  • Daryl Zanuck abandona a 20th Century Fox e torna-se num produtor independente.
  • As restrições do Código de Produção sobre o aborto e outros assuntos sensíveis tornam-se menos apertadas.
  • A Warner Bros. vende os seus filmes produzidos até 1950 a um grupo de investidores.
  • A nomeação de Michael Wilson para o Óscar de melhor argumento pelo filme Sublime Tentação é proibida porque o argumentista recusou colaborar com o Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas e estava na lista negra.
  • O noticiário (newsreel) da Warner-Pathé deixa de ser produzido, vítima da televisão.
  • Na Grã-Bretanha, o movimento contra o sistema, designado por “Cinema Livre”, é liderado por jovens realizadores como Lindsay Anderson e Tony Richardson.

1957

  • Morrem 0 actor Humphrey Bogard e o antigo responsável pela Metro-Goldwyn-Mayer, Louis B. Mayer.
  • A RKO Radio Pictures e a Republic Films abandonam a produção cinematográfica e dedicam-se à produção para televisão.
  • A Universal Films aluga os seus filmes a canais de televisão.
  • A Paramount Pictures abandona a produção do seu serviço noticioso (newsreel).
  • Tem início o primeiro festival internacional de cinema dos Estados Unidos: O Festival de Cinema de São Francisco.
  • A United Artists recupera da crise em que se encontrava graças ao trabalho de realizadores independentes como Otto Preminger e Stanley Kramer.
  • Em França, o fundador da revista Cahiers du Cinéma, André Bazin, apoia a teoria do “cinema de autor”, que defende o realizador como autor do filme.

1958

  • A Paramount Pictures vende os direitos sobre os seus filmes produzidos antes de 1948 à MCA, sendo o último dos grandes estúdio a faze-lo.
  • A Paramount permite que produtores independentes utilizam os seus estúdios.
  • Como golpe publicitário para o seu filme Macabre, o produtor William Castle faz um seguro de mil dólares contra o risco de alguém morrer de susto.
  • É revelado que um dos dois argumentistas que ganharam o Óscar para melhor argumento pelo filme Os Audaciosos é Nedrick Young, que estava na lista negra do Comité de Investigação de Actividades Anti-americanas.
  • Colaboradores da revista Cahiers du Cinéma, entre outros, criam o movimento Nouvelle Vague. Os realizadores Claude Chabrol e François Truffaut destacam-se como “praticantes” do movimento.
  • Em França, o eleito presidente da república, Charles De Gaulle, cria um programa governamental de apoio à produção cinematográfica.
  • A produtora inglesa Hammer Films alcança sucesso graças aos seus filmes de terror.

1959

  • Os filmes da Nouvelle Vague, entre eles Os Os 400 Golpes e Hiroshima, Meu Amor, revigoram o cinema francês e ganham reconhecimento internacional.
  • Nos Estados Unidos, a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas volta a permitir a nomeação de profissionais que estavam na lista negra do Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas.
  • O presidente soviético Nikita Khruschev visita Hollywood e com desagrado assiste ao filme Can-Can.
  • Os filmes de Elizabeth Taylor são proibidos no Egipto, após a actriz ter participado na angariação de fundos a favor de Israel.
  • John Wayne é acusado pelo Governo do Panamá de interferir na política do país após ter pago meio milhão de dólares ao activista Roberto Arias.
  • A Janus Films, uma distribuidora de filmes estrangeiros nos Estados Unidos, ganha fama e sucesso com os filmes de Ingmar Bergman.
  • Hércules é o primeiro de uma série de filmes italianos dobrados em inglês a ter sucesso nos Estados Unidos.
  • O preço dos bilhetes de cinema nos Estados Unidos desce ao longo da década como forma de combater a televisão.

Deixar uma resposta