A Torre do Inferno (1974)

Torre do Inferno (1974)

Os anos 70 ficam também marcados na história da sétima arte pelo conjunto de filmes-catastrofe que foram produzidos durante a década e que teve em A Torre do Inferno um dos seus pontos altos.

O filme começou a ganhar forma na primavera de 1973, quando a 20th Century Fox e a Warner Bros. disputaram a compra do livro The Tower, de Richard Martin Stern, que relata um incêndio de grandes proporções num novo e moderno arranha-ceus. Longe de ser uma obra-prima, a história era ideal para ser transposta para o grande ecrã e desencadeou uma “guerra” entre os dois estúdios, ganha pela Warner. Semanas mais tarde a Fox teve conhecimento de uma outra obra cuja história era sobre… um incêndio num arranha-céus e comprou o livro por 400 mil dólares, mais 10 mil do que tinha pago a Warner por The Tower.

Numa iniciativa rara, os dois estúdios resolveram unir esforços e produzir o filme a meias, evitando, assim, produções concorrentes em que alguém, se não mesmo os dois estúdios, sairia a perder. Com o título The Towering Inferno, que combina os títulos das duas obras, os estúdios confiaram a produção a Irwin Allen, um dos mais conceituados produtores dos anos 70 e que tinha produzido com bastante sucesso outro filme-catastrofe dos anos 70, A Aventura de Poseidon.

Uma vez que Allen trabalhava na Fox, a Warner aceitou que o filme ai fosse rodado, tendo sido acordado um orçamento de 14 milhões de dólares. Tal como o orçamento, também os lucros foram divididos entre os dois estúdios, ficando a 20th Century Fox com os direitos de distribuição nos Estados Unidos e a Warner com os direitos de distribuição no resto do mundo e com os direitos televisivos.

Na tentativa de repetir o sucesso de A Aventura de Poseidon Allen decidiu chamar alguns dos elementos com quem tinha trabalhado naquele filme e, assim, coube a Stirling Silliphant escrever o argumento e a John Williams a banda sonora. Para realizar o filme, Allen escolheu o britânico John Guillermin, que tinha feito um trabalho credível no filme-catastrofe Skyjacked, reservando para si a realização das cenas de acção.

O argumento de Silliphant, que deixou de lado grande parte dos dois livros que serviam de base à história, tinha duas personagens principais masculinas: Doug Roberts, o arquitecto do arranha-céus, e Michael O’Hallorhan, o chefe de bombeiros que coordena a missão de salvamento. Para o papel de chefe de bombeiros, Irwin Allen tinha em mente Ernest Borgnine e para o de arquitecto Steven McQueen, um dos maiores actores da década de 70. McQueen concordou em participar no filme e assinou um contracto que lhe permitiria ganhar cerca de 12 milhões de dólares. Mas só depois de assinar o contracto é que o actor leu o argumento e se apercebeu que tinha aceite interpretar o personagem errado: o verdadeiro herói da história era o chefe de bombeiros. Através do seu agente, McQueen fez saber aos estúdios que se algum actor do seu calibre interpretasse o papel de arquitecto, ele interpretaria o de chefe de bombeiros e esse desafio, nos anos 70, só podia significar um nome: o do seu rival Paul Newman.

A relação entre os dois actores sempre fora complexa e as suas carreiras seguiam, estranhamente, caminhos paralelos, chegando ambos a interpretar papéis semelhantes (rebeldes e anti-heróis). Fora do grande ecrã, os dois eram pilotos de automóveis, mas as semelhanças acabavam ai já que, enquanto McQueen tentava prolongar a imagem cinematográfica de rebelde vivendo rodeado de mulheres, álcool e brigas, Paul Newman era conhecido pela sua cortesia, tinha um casamento estável com a actriz Joanne Woodward e participava em acções sociais e politicas. Entre os dois, Newman fora sempre a estrela maior e McQueen via A Torre do Inferno como uma desforra.

Assim que Paul Newman se comprometeu a participar no filme, McQueen começou a contar o número de linhas de diálogo que cada um tinha e ficou indignado quando soube que o arquitecto tinha 12 linhas a mais que o chefe de bombeiros. Silliphant foi obrigado a escrever mais 12 linhas de diálogo para o personagem interpretadol por McQueen.

Os conflitos não se ficaram por aqui e McQueen levantou novo problema com a questão de qual dos dois nomes deveria vir em primeiro lugar nos materiais publicitários e na ficha técnica do filme. Nenhuma das partes queria ceder mas finalmente conseguiram uma suada solução de compromisso: o nome de Steven McQueen deveria vir à esquerda e o de Paul Newman à direita ligeiramente subido. Tecnicamente ambos tinham a mesma importância, mas McQueen sabia que as pessoas liam da esquerda para a direita e assim o seu nome vinha em primeiro lugar: finalmente tinha ganho ao seu grande rival.

Muito embora McQueen tenha levantado alguns problemas no primeiro dia, as filmagens decorreram sem grandes problemas, até porque os dois actores tinham poucas cenas em conjunto. Newman nunca se referiu à rivalidade entre os dois e a sua opinião sobre o filme era a de que não eram um mau filme tendo em conta o seu género.

Seguindo a mesma fórmula de A Aventura de Poseidon, Irwin Allen contratou um vasto conjunto de caras conhecidas para os papéis secundários, entre eles: William Holden, Faye Dunaway, Fred Astaire, Richard Chamberlain e Robert Wagner. Para um dos papéis menores Allen contratou o estreante Scott Newman, filho do primeiro casamento de Paul Newman. Scott era um jovem problemático que nunca tinha aceite o papel de Joanne Woodward na vida do pai e este, na esperança de ajudar o filho, encorajou-o a tentar uma carreira de actor. Infelizmente o seu plano não deu resultado e Scott Newman apenas participou em mais três filmes, todos eles em papeis menores, tendo morrido aos 27 anos com uma overdose de drogas e álcool.

A Torre do Inferno assenta grande parte da sua história em momentos de acção espectacular e tendo em conta que foi produzido antes do aparecimento dos efeitos especiais feitos por computador, grande parte do trabalho é da responsabilidade da equipa de duplos e do especialista em efeitos especiais Bill Abbott (que também trabalhou em A Aventura de Poseidon). Para o efeito, Abbott construiu uma gigante “miniatura” do arranha-céus e espalhou botijas de gás por todo o cenário de forma a conseguir recriar um incêndio o mais realista possível. O realismo foi de tal forma conseguido que o sentimento de todos os que estavam envolvidos na rodagem era o de constante perigo. No entanto, tudo correu sem problemas (apenas o chefe de bombeiros do estúdio teve um ligeiro ferimento provocado por um vidro partido.) e o resultado, mesmo nos dias de hoje, é de um realismo espectacular e impressionante.

O filme estreou no final de 1974 e a crítica foi arrasadora, considerando-o um dos piores do ano. No entanto, o público não deu importância às críticas e o filme foi um sucesso, arrecadando 116 milhões de dólares e 8 nomeações para os Óscares. O filme tinha a forte concorrência de O Padrinho, Parte II e acabou apenas por ganhar nas categorias de melhor fotografia, melhor montagem e melhor canção.

A Torre do Inferno está longe de ser uma obra-prima, mas é um bom exemplo do cinema espectáculo que Holllywood tão bem sabe produzir e não fica nada atrás de muitos filmes de acção que hoje em dia apenas têm a mais-valia dos efeitos especiais.


Towering Inferno
20th Century Fox, Warner Bros. EUA, 1974, 165m, drama.
Realizado: Irwin Allen e John Guillermin. Argumento: Stirling Silliphant; baseado nos livros “The Tower”, de Richard Martin Stern, e “The Glass Inferno”, de Thomas N. Scortia e Frank M. Robinson. Actores: Steve McQueen, Paul Newman, William Holden, Faye Dunaway

O arquitecto de um moderno arranha-céus regressa de férias para a sua inauguração e descobre que as suas especificações não foram seguidas e que existe o perigo de incêndio. O seu receio torna-se realidade e com a ajuda do chefe de bombeiros tenta combater o fogo e salvar as pessoas que se encontram na festa de inauguração.