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Laura

Laura
20th Century Fox
Estados Unidos, 1944, 88 min., film noir
Realizador: Otto Preminger
Argumento: Jay Dratler, Samuel Hoffenstein e Elizabeth Reinhardt, baseado no romance de Vera Caspary
Actores: Gene Tierney, Dana Andrews, Clifton Webb, Vincent Price, Judith Anderson
Estreia em Portugal: 3 de Dezembro 1945 (Tivoli)

Um detective da polícia apaixona-se pela mulher, cujo assassinato está a investigar.

Murder victims have no claim to privacy
- Lt. Mark Mcpherson (Laura, 1944)

Laura é um dos mais conhecidos e venerados filmes negros da história do cinema. No entanto, ao vermos o filme parece que estamos perante uma história de amor, de tal forma é exímio na manipulação/subversão das características do género. É esta a grande mais-valia de Laura, que muito deve ao trabalho de Otto Preminger.

Com uma produção quase tão lendária como o próprio filme, Laura começou a ganhar forma quando a 20th Century Fox adquiriu os direitos da história de Vera Caspary, a conselho de Preminger. Devido a um conflito anterior com Daryl F. Zanuck, responsável pela Fox e que o proibiu de voltar a realizar para o estúdio, Preminger apenas podia produzir o filme e contratou Rouben Mamoulian para o realizar. Este começou por reescrever o argumento e pretendia contratar um actor, para o personagem de Waldo Lydecker, diferente do que pretendia Preminger, tendo começado ai um conflito entre os dois. Sem dar conhecimento a ninguém, Preminger realizou um screen test a Clitton Webb, o actor que pensava que seria perfeito para o personagem, e mostrou as imagens a Zanuck. Embora este receasse que os maneirismos homossexuais de Webb prejudicassem o filme, Zanuck, ao ver o teste, considerou-o perfeito para o filme e contratou-o.

Se a contratação de Webb (foto á esquerda) se revelou bastante acertada e o actor contribui para o sucesso do filme, a contratação dos restantes actores também o foi, nomeadamente os de Gene Tierney, Dana Andrews e Vincent Price. Tierney foi contratada numa altura em que atravessava um período difícil, devido ao facto do seu filho cego-mudo ter sido internado nessa altura. A actriz já tinha uma sólida carreira quando lhe foi proposto a personagem de Laura, mas a sentia-se insegura em relação às suas qualidades e em relação ao pouco tempo que a sua personagem surge no ecrã. Tierney aceitou participar em Laura quando Zanuck lhe garantiu que o filme iria ajudar a sua carreira: não só ajudou, como tornou a actriz num icon do cinema.

Para contracenar ao lado de Tierney, o estúdio optou por Dana Andrews, que começou a sua carreira sob contracto de Sam Goldwyn e ao lado de Gary Cooper, em A Última Fronteira (1940). Pouco tempo depois, Goldwyn vendeu metade do contracto do actor à Fox e foi nessa condição que Andrews participou em Laura, que se revelou fundamental para a sua carreira.

Por sua vez, para Vincent Price Laura não foi tão marcante como para os restantes actores. Muito embora a sua excelente interpretação e considerar Laura o melhor filme alguma vez feito, Price ficou mais conhecido pelas suas interpretações em filmes de terror, cujo ciclo se iniciou em meados da década de 50 com Máscara de Cera.

Os primeiros dias de filmagens não foram pacíficos, com Mamoulian a dar uma direcção completamente diferente ao filme do que pretendia Preminger. Após ver as primeiras cenas filmadas, Zanuck despediu Mamoulian e, quebrando a sua promessa, deu autorização a Preminger para voltar a realizar, entregando-lhe Laura. No seu novo posto, Preminger deu um novo rumo ao filme, tornando-o mais negro e uma crítica à alta alta sociedade nova-iorquina. Para este novo rumo, muito contribuiu o facto de Preminger ter contratado um novo director de fotografia, pedido novos cenários e guarda-roupa e um novo retrato de Laura (uma peça fundamental da história e que mais não é do que uma fotografia pintada).

Um dos aspectos que também contribuiu para o sucesso de Laura é a fantástica música composta por David Raksin. Na história original, a canção favorita de Laura é Smoke Gets in Your Eyes de Roberta, mas a canção foi descartada pelo estúdio, por já existir outros filmes associados a ela. Assim, Raskin foi contratado para escrever uma melodia original e só posteriormente é que Johny Mercer escreveu uma letra para a canção. Esta revelou-se um sucesso comercial e ficou imortalizada quando Frank Sinatra a gravou em 1945.

Muito do ambiente e atmosfera de um film noir deve-se à sua fotografia e Laura é um bom exemplo disso. O director de fotografia, Joseph Lashelle, tem um excelente trabalho, tendo passado horas a preparar cada cena de forma meticulosa. O seu trabalho contribuiu de tal forma para o sucesso do filme, que Lashelle foi galardoado com o Óscar de melhor fotografia, o único que o filme ganhou das cinco nomeações que obteve.

O sucesso de Laura mantém-se até aos nossos dias, sendo considerado um dos melhores exemplos do film noir. No entanto, tal adjectivação é redutora, uma vez que Laura extravasa o género, sendo um filme completo, onde tudo se conjuga na perfeição.

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