Tubarão (1975)

O Blockbuster

A década de 70 foi palco de um conjunto de acontecimentos que alteraram o panorama da indústria cinematográfica norte-americana e, consequentemente, do resto do mundo. Após 25 anos de declínio económico, os anos entre 69 e 71 revelaram-se o fundo de uma crise que alterou por completo a industria. Exemplo dessa crise é o facto da Metro-Goldwyn-Mayer, um dos símbolos da meca do cinema, se ter visto obrigada, em 1970, a leiloar o guarda-roupa e adereços das suas mais famosas produções.

Muito embora os novos géneros cinematográficos, Hollywood demonstrava, no início desta década, uma incapacidade de atrair o público mais jovem às salas de cinema e isso revelava-se no decrescente número de espectadores. A salvação da indústria esteve numa nova geração de realizadores, que cresceram a ver os filmes de Hollywood e reinventaram alguns géneros cinematográficos, precisamente numa época de transformação social. Realizadores como Martin Scorsese, George Lucas, Brian de Palma, Francis Ford Coppola e Steven Spielberg foram alguns dos nomes que reinventaram Hollywood e que, devido ao facto dos estúdios não encontrarem outras soluções, tinham liberdade (e dinheiro) para realizarem o que desejavam. Como resultado, na década de 70, foram produzidos filmes como O Padrinho (I e II), O Exorcista, Os Incorruptíveis Contra a Droga, O Tubarão (foto) e A Guerra das Estrelas. Todos eles grandes sucessos de bilheteira, em particular os dois últimos, que marcam o ponto de viragem da industria e criaram um “monstro”: o blockbuster. Virado para um público jovem, repleto de acção e efeitos especiais, este tipo de filme transformou a economia de Hollywood e os estúdios cada vez mais dependem deles. Antes do blockbuster se “solidificar” na década seguinte, os realizadores que os criaram tiveram a oportunidade de inovar, produzindo filmes como Nashville, Taxi Driver, Laranja Mecânica, O Caçador, entre muitos outros. Para além destes, Hollywood teve também algum sucesso com filmes mais tradicionais, como os filmes catástrofe A Torre do Inferno, Aeroporto, Terramoto, entre outros, e até assistiu ao regresso dos musicais com A Febre de Sábado à Noite e Greese.

A transformação económica dos anos 70 não se ficou pelo nascimento do blockbuster e Hollywood viu o seu crescimento económico também assente em novas fontes de receitas: os multiplexes (complexos cinematográficos com várias salas de cinema), que permitiram exibir mais filmes e de uma forma mais lucrativa, e novos canais de televisão por cabo, como o Home Box Office (HBO), que permitiram aumentar a “vida” de um filme e retirar dai dividendos. Para além destas novas formas de exploração cinematográficas, Hollywood descobriu também a saturação publicitária, nomeadamente em televisão, que em conjunto com a exibição de um filme em larga escala, traduziu-se em grandes receitas.

Tal como em Hollywood, o restante panorama cinematográfico mundial mostrava-se, também, muito sombrio no início da década de 70 e apenas o aparecimento de novos realizadores disfarçava a crise. Em Inglaterra, a produção cinematográfica caiu vertiginosamente e apenas a utilização dos estúdios pelas produções norte-americanas conseguia manter a indústria do país à tona de água. Os anos 70 são também de crise para as cinematografias italianas e japonesas, enquanto que na Alemanha o novo cinema alemão, conhecido pela sua crítica aos valores burgueses, ganhava reconhecimento internacional, nomeadamente através dos filmes de Wim Wenders e Rainer Werner Fassbinder. Tal como na Alemanha, também na Polónia, Austrália e Brasil viram as suas cinematografias reconhecidas, através, uma vez mais, do trabalho de novos realizadores como o dos polacos Andrzej Wajda e Krzystof Kiesconski, do brasileiro Bruno Barreto e do australiano Bruce Beresford.

» 1970
– Por pressão do Departamento de Justiça, a industria cinematográfica norte-americana institui quotas para o emprego de minorias.

– Richard D. Zanuck, presidente da 20th Century Fox, é forçado a abandonar o cargo devido ao falhanço comercial dos últimos filmes do estúdio, que o colocam à beira da falência, à semelhança do que aconteceu nos outros estúdios de Hollywood.

– Stanley Jaffe torna-se, aos 30 anos, o mais novo responsável de um estúdio de Hollywood, ao assumir o cargo de presidente da Paramount Pictures.

– A Metro-Goldwyn-Mayer muda os escritórios da administração de Nova Iorque para Hollywood e leiloa os adereços e guarda-roupa dos seus filmes.

– O vice-presidente norte-americano, Spiro Agnew, ataca os filmes de música rock, acusando-os de “lavar o cérebro” à juventude, que se sente atraída pelas drogas.

– As forças armadas norte-americanas banem a exibição de MASH., vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, devido à sua crítica aos militares.

– Como reflexo da crise, a industria cinematográfica inglesa tem apenas quatro filmes em produção.

– É inaugurado, em Paris, o primeiro drive-in numa área metropolitana francesa.

Dodes’kaden marca o regresso de Akira Kurosawa à realização, após um interregno de cinco anos.

– O filme Inquérito a Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, do realizador Elio Petri, levanta celeuma em Itália devido ao seu retrato da corrupção nas forças policiais.

» 1971
– Nos Estados Unidos, o preço médio de um bilhete de cinema é de $1.65 dólares, mas muitas salas de cinema, que não exibem estreias, têm sucesso ao cobrar apenas um dólar.

– A indústria cinematográfica de Hollywood, com o apoio do Governador da Califórnia, Ronald Reagan, recebe garantias do Governo para ajudar o sector em crise.

– A comunidade italiana nos Estados Unidos consegue pressionar o realizador Francis Ford Coppola a não utilizar a palavra Máfia no filme O Padrinho.

– George C. Scott renuncia a uma eventual vitória nos Óscares deste ano, acabando por ganhar mesmo o prémio de melhor actor, pela sua interpretação em Patton.

– O estado norte-americano da Georgia bane o filme Iniciação Carnal , considerando-o obsceno, mas o Supremo Tribunal anula a decisão.

– A televisão estatal francesa recusa-se a transmitir Le Chagrin et la Pitié, documentário de Marcel Ophuls sobre a colaboração francesa com os alemães durante a II Grande Guerra Mundial.

– O realizador Pier Paolo Pasolini volta a ter problemas com a censura italiana, desta vez por causa do filme Decameron.

– Cinco anos após a sua exibição em Cannes, o filme de Andre Tarkovsky Andrei Rublev – O Artista Maldito é finalmente autorizado pelas autoridades soviéticas a ser distribuído no país.

» 1972
– A inauguração do canal de televisão por cabo Home Box Office (HBO) dá inicio a uma nova fonte de receitas para a indústria cinematográfica norte-americana: canais de tv por cabo codificados e serviços de pay-per-view.

– A estação de televisão norte-americana CBS abandona a produção cinematográfica.

– O realizador Stanley Kubrick é obrigado a remontar o filme Laranja Mecânica, devido à recusa de muitas salas de cinema em exibirem um filme classificado para adultos e de muitos jornais recusarem a publicação do anúncio ao filme.

– O filme pornográfico Garganta Funda enfrenta acções judiciais em várias localidades dos Estados Unidos. Mas tal não impede que o filme se torne no maior sucesso do género.

– A famosa revista norte-americana Life, que durante décadas informou e ajudou a publicitar filmes e actores de Hollywood, deixa de ser publicada semanalmente.

O Padrinho bate recordes de bilheteira e é alvo de controvérsia devido à violência e ao seu retrato da comunidade italiana nos Estados Unidos.

A Aventura de Poisedon é o primeiro de um ciclo de filmes catástrofe, género muito popular durante esta década.

– Outro género popular é o Blaxploitation, filmes de baixo orçamento interpretado por actores negros.

– A visita da actriz Jane Fonda a Hanoi (Vietnam) não é bem vista por muitos norte-americanos.

– Charlie Chaplin regressa aos Estados Unidos, após duas décadas de “exílio”, para receber dois prémios honorários.

– Jovens anti-Castro interrompem o primeiro festival de cinema cubano em Nova Iorque.

– Lados opostos da ocupação francesa da Algéria entram em confronto após a exibição do filme La Battaglia di Algeri, em Bordéus.

– Em Paris, a sala Gaumont Palace, construída em 1911 e com mais de 6.000 lugares, fecha as portas e dá lugar a um centro comercial e a um hotel.

– A Johannesburg Film Society deixa de atribuir o prémio para o melhor filme porque a censura do governo sul-africano impede a exibição dos melhores filmes.

» 1973
– A Metro-Goldwyn-Mayer anúncia que vai começar a distribuir os seus filmes através da United Artists.

– Como forma de demonstrar o seu apoio aos índios americanos, Marlon Brandon faz-se representar na cerimónia dos Óscares deste ano pela apache Sacheen Little Feather, que lê o seu discurso a rejeitar o Óscar para melhor actor pelo filme O Padrinho. Posteriormente, vem a saber-se que Little Feather é, na realidade, uma actriz de nome Maria Cruz.

O Exorcista é o primeiro, de uma série de filmes de terror, a ter sucesso junto de público.

– O actor e especialista em artes marciais, Bruce Lee, morre misteriosamente, numa altura em que os seus filmes tornam o género popular.

– Um tribunal italiano considera o realizador Bernardo Bertolucci inocente da acusação de obscenidade no seu filme O Último Tango em Paris.

– Em Cannes, o realizador Marco Ferreri é acusado de mau gosto devido ao seu filme A Grande Farra, sobre pessoas que se comem umas às outras até à morte.

» 1974
– Os lucros da Metro-Goldwyn-Mayer aumentam graças ao seu hotel/casino de Las Vegas, deixando para segundo plano as actividades cinematográficas do grupo.

– Julia Phillips é a primeira mulher a receber um Óscar como produtora, quando A Golpada vence o prémio de melhor filme desse ano.

– Pela primeira vez, dois estúdios (Warner Bros. e 20th Century Fox) juntam-se para produzir, em conjunto, um filme (A Torre do Inferno).

Massacre no Texas torna-se num filme de culto e reflecte a nova cultura de violência cinematográfica.

– Seguindo o exemplo francês, o México abre uma cinemateca nacional.

– O filme Siddhartha gera controvérsia no Festival de Cinema da Índia devido a uma cena de nu.

– A censura egípcia recua e permite a exibição do filme Asfour, al, sobre a guerra dos 6 dias ocorrida, em 1967, entre o Egipto e Israel.

– Kathleen Nolan é a primeira mulher a ser eleita para a presidência do Screen Actors Guild (sindicato dos actores de cinema e televisão).

» 1975
– A Sony dá a conhecer o Betamax, um sistema de vídeo caseiro que custa cerca de $2.000 dólares.

– Dalton Trumbo, argumentista na Lista Negra do Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas, recebe, finalmente, o Óscar para melhor argumento ganho 20 anos antes pelo seu trabalho em The Brave One.

– O filme Tubarão, de Steven Spielberg, inicia uma nova forma de marketing cinematográfico ao utilizar massivamente anúncios televisivos e ao estrear num número de salas sem precedentes.

– França inicia a atribuição de prémios nacionais de cinema, designados por Césares.

– O governo francês deixa de subsidiar filmes classificados para adultos.

– O realizador Pier Paolo Pasolini é assassinado em Bolonha.

» 1976
– Os Estados Unidos assistem ao declínio do drive-in, com o desaparecimento de mais de 1000 ecrãs em duas décadas.

– A Paramount Pictures anuncia que vai distribuir filmes no formato Betamax.

Rocky é o primeiro filme a utilizar o sistema Steadicam.

– Francis Ford Coppola roda Apocalypse Now nas Filipinas. Com uma duração de dois anos, a rodagem, é assolada por problemas, entre eles: um tufão, um ataque cardíaco do actor principal e conflitos provocados por Marlon Brando.

E Tudo o Vento Levou, transmitido pela primeira vez em televisão nos Estados Unidos, em duas noites consecutivas, bate recordes de audiência.

– A Grã-Bretanha impõe um imposto de 75% das receitas mundiais de um filme a produtores estrangeiros que vivam no país.

– Um tribunal italiano considera O Último Tango em Paris obsceno e declara que todas as pessoas envolvidas na sua produção, incluindo Marlon Brando, podem ser presas.

– O realizador sueco Ingmar Bergman é preso por invasão fiscal e sofre um esgotamento nervoso.

– O filme de Nagisa Oshima O Império dos Sentidos, sobre sexo obsessivo, é banido no Japão e nos Estados Unidos.

» 1977
– Exibido num grande número de salas, Guerra das Estrelas arrecada 127 milhões de dólares de receita e mais de 2 biliões e meio em merchandising. O sucesso do filme estabelece, também, o sistema de som Dolby como standart.

– A 20th Century Fox inicia a comercialização de filmes em cassetes de vídeo.

– A actriz Bette Davis é a primeira a receber o prémio de carreira do American Film Institute.

– O realizador Francis Ford Coppola é obrigado a penhorar a sua casa para arranjar dinheiro para acabar o filme Apocalypse Now.

– O fato de homem que a actriz Diane Keaton usa no filme Annie Hall inicia uma nova moda.

– O realizador Claude Autant-Lara culpa publicamente a Nouvelle Vague pelo decréscimo de espectadores dos filmes franceses.

– Com a morte do ditador Franco, Espanha acaba com a censura, possibilitando a exibição do filme Viridiana, que Luis Bunuel realizou em 1961.

» 1978
– Hollywood vê a sua produção diminuir com apenas 354 filmes exibidos, contrastando com os 560 do ano anterior.

– Hollywood sente o futuro da exibição de filmes ameaçado perante o crescimento da popularidade do vídeo.

– Três executivos da United Artists demitem-se e formam a Orion Pictures.

– O discurso de Vanessa Redgrave, a favor da Palestina, na aceitação do Óscar para melhor actriz secundária, levanta muitos protestos. Três meses depois, uma bomba explode num cinema de Los Angeles, onde é exibido o documentário The Palestinian.

– Um dia antes de ouvir a sentença do tribunal num caso de corrupção de menores, o realizador Roman Polanski foge para França.

– Canada bane Pretty Baby, o primeiro filme em língua inglesa do francês Louis Malle e onde Brooke Shields interpreta uma prostituta de 12 anos.

– Ingmar Bergman regressa à Suécia e ai realiza Sonata de Outono, o primeiro filme do realizador na sua terra natal em quatro décadas.

– Muito embora a sua reputação mundial, o realizador indiano Satyasit Ray tem dificuldade em encontrar um distribuidor para o seu filme Shatranj Ke Khilari.

– A censura indiana permite beijos nos filmes.

– Com o fim da revolução cultural na China, a Academia de Cinema de Beijing reabre as suas portas.

» 1979
– Nos Estados Unidos, homossexuais protestam contra o filme de William Friedkin, Cruising, sobre homossexualidade sadomasoquista.

– Com o filme Mulher Nota 10, do realizador Blake Edwards, a actriz Bo Derek torna-se num símbolo sexual e a sua imagem está espalhada por todo o lado.

– Alan Ladd, Jr. demite-se do seu cargo de gestor da 20th Century Fox e torna-se num produtor independente. A sua demissão, contra a gestão por objectivos defendida pela administração do estúdio, simboliza o choque entre a velha e a nova Hollywood.

– É inaugurado, em Toronto (Canada), o maior complexo de cinema do mundo, com 18 salas.

– Países comunistas abandonam o Festival de Cinema da Alemanha Ocidental em protesto contra a exibição do filme O Caçador, que dá uma visão sádica e brutal dos norte-vietnamitas durante a guerra do Vietname.

– O produtor Carlo Ponti, marido da actriz Sophia Loren, enfrenta acusações de tráfego ilegal de moedas e obras de arte.