A Pista dos Gigantes
The Big Trail
Fox Film Corporation
Estados Unidos, 1930, 122m, western
Realizador: Raoul Walsh
Argumento: Marie Boyle, Jack Peabody, Florence Postal, baseado na história de Hal G. Evarts
Actores: John Wayne, Tyrone Power Sr., Marquerite Churchill, El Brendel, David Rollins
Estreia em Portugal: 10 de Fevereiro 1932 (Odeon)*
Breck Coleman aceita liderar uma caravana de pioneiros para o Oeste, com o intuito de descobrir o assassino do seu amigo.
A Pista dos Gigantes é um grandioso espectáculo cinematográfico, que fica para a história do cinema como o primeiro western sonoro e o primeiro da longa carreira de John Wayne.
Marion Morrison, na altura assistente e actor em part-time, teve a sua grande oportunidade quando o realizador Raoul Walsh, assistente e actor em Nascimento de uma Nação, teve de encontrar um protagonista para o seu novo filme, após ter perdido um olho e não poder ser ele próprio o protagonista. O realizador John Ford recomendou-lhe o seu amigo Morrison e Walsh aceitou a sugestão, tendo alterado o nome do actor para John Wayne. Embora a interpretação deste mostre um actor sem experiência, ela não difere muito das interpretações da época, já que grande parte dos actores tinham experiência de teatro e ainda não sabiam como adequar a sua interpretação às imagens em movimento.
A Pista dos Gigantes foi rodado entre Abril e Agosto de 1930, implicando uma complicada logística, uma vez que as filmagens decorreram em 4 estados (num perímetro de mais de 7.000 km) e implicou a utilização de 20 mil figurantes, 1.400 cavalos, 500 búfalos, 1.800 peças de gado, 185 carruagens e 200 técnicos, 22 dos quais operadores de câmara. Esta monumental logística reflecte-se no produto final, que é um espectáculo visual surpreendente e bastante realista. De tal forma, que a cena da travessia do rio, uma das mais espectaculares do filme, Walsh quase perdeu toda a sua equipa, incluindo o gado.
Toda a grandeza do filme custou à Fox cerca de $2 milhões de dólares, um valor astronómico para a época, tanto mais numa altura em que o país estava à beira da Grande Depressão. Parte do orçamento foi absorvido pelas diversas versões filmadas, quer as em línguas estrangeiras (francês, espanhol, italiano e alemão, rodadas em 35mm e com actores diferentes para cada uma delas), quer as duas versões técnicas do filme. Se as versões em língua estrangeira eram uma prática comum no início da era sonora, já o facto de o filme ter sido filmado utilizando dois processos de imagem diferentes já não é tão comum.
Numa época de grandes inovações, a cor e os formatos panorâmicos eram as grandes apostas dos estúdios de Hollywood. Enquanto uns apostavam na produção de filmes a cores, outros, apostaram em formatos de ecrã panorâmico e foi o que a Fox fez com The Big Trail. Fox Grandeur, de 70mm, foi o formato panorâmico escolhido, mas como apenas duas salas de cinema nos Estados Unidos estavam equipadas para este tipo de projecção, o filme teve de ser rodado também na versão normal de 35mm. A rodagem das duas versões implicou a duplicação das cenas, o que encareceu o filme, mas a versão de 70mm teve um resultado impressionante junto dos espectadores, que ficaram estarrecidos com o que viam.
Apesar da espectacularidade de A Pista dos Gigantes, este foi um fracasso de bilheteira e rapidamente foi esquecido. Por arrasto, o sistema Fox Grandeur desapareceu e a carreira de John Wayne sofreu um grande revés. A partir daqui, o actor teve de se contentar com uma série de interpretações em westerns de baixo orçamento e foi, uma vez mais, o seu amigo John Ford que o “salvou” ao escolhê-lo, nove anos depois, para participar em Cavalgada Heróica, filme que o tornou num dos grandes ícones do cinema.
Em 1980, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque recuperou o filme do esquecimento, ao restaurá-lo para o formato panorâmico original em toda a sua glória (devido à má qualidade da cópia existente, o restauro implicou um cuidado especial e foi bastante demorado). Por sua vez, em 2006, a Biblioteca do Congresso Norte-Americano seleccionou The Big Trail para o seu programa de preservação, considerando-o “cultural, histórico e esteticamente significante”.
* Em Portugal, estreaou a versão francesa “La Piste des Géants“, realizada por Pierre Coudere e interpretada por Gaston Glass, Jeanne Helbling, Margot Rousseroy, Raoul Paoli.
