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Film Noir

De todos os géneros cinematográficos, o film noir é um dos mais difíceis de definir, existindo mesmo divergências se é um género ou um movimento. Mas essencialmente, o film noir caracteriza-se pelo seu ambiente negro onde personagens (na sua maioria duvidosos) agem de forma obsessiva, num percurso irremediavelmente trágico. Um dos seus traços mais marcantes é a componente visual, onde a luz e as sombras enfatizam o mundo negro e imoral onde as histórias se desenrolam.

Embora o termo derive da designação francesa “Série Noir“, utilizada a partir de 1945 para identificar romances de autores norte-americanos como Raymond Chandler, Horace McCoy, W.R. Burnett, entre outros, as influências do film noir remontam à década de 30, nomeadamente ao expressionismo alemão, aos realistas poéticos franceses, aos filmes de gangsters de Hollywood e aos romances com heróis fortes, muitos deles incluídos na “Série Noir“.

Do expressionismo alemão o film noir foi buscar o seu lado estético, onde a ênfase no desenho de produção, os ângulos de câmara fora do comum, a montagem e outras inovações técnicas permitiram criar um género com uma componente visual muito forte e única. Grande parte desta influência deveu-se aos muitos realizadores e técnicos que imigraram para os Estados Unidos, fugidos do regime Nazi que crescia na Alemanha da década de 30. Muitos desses realizadores fizeram-no através de França, onde tiveram contacto com o realismo poético, termo utilizado, primeiro na literatura e posteriormente no cinema. Estas obras caracterizavam-se pelo uso de cenários e personagens reais num contexto social onde o crime tinha origem na opressão física e mental. A influência francesa foi tal, que muitos desses realizadores refizeram, já nos Estados Unidos, muitos dos filmes desse período como film noir.

A grande depressão da década de 20 foi o cenário ideal para a proliferação de gangsters, cujo dinheiro, poder, mulheres e roupas eram glorificados nas primeiras páginas dos jornais. Por outro lado, os bestsellers sempre foram uma fonte de inspiração de Hollywood e no final da década de 30 e início da de 40, os livros mais vendidos eram os que protagonizavam heróis duros numa sociedade imoral. Estes mundos rapidamente foram adaptados ao grande ecrã por uma Hollywood pré-código de produção, ajudando-os a enraizar-se ainda mais na sociedade norte-americana: estava aberto o caminho para o film noir nas décadas seguintes.

O mundo imoral das histórias dos film noir é caracterizado pela escuridão e pelas sombras, onde jogos de luzes ajudam a criar um ambiente misterioso e bastante visual. No entanto, esta componente surgiu por necessidade, já que a Segunda Grande Guerra levou à redução de orçamentos, em particular nas produções de série B. Esta situação fez com que directores de fotografia, muitos deles veteranos dos filmes mudos como Hal Mohr, John Seitz, Joseph La Shelle, John Alton, entre outros, utilizassem os jogos de luzes (e sombras) como forma de “esconder” os baixos níveis de produção, nomeadamente os poucos e paupérrimos cenários utilizados.

Muitas são as discussões sobre o período de vigência do film noir, mas os períodos de 1940 a 1960 ou de 1945 a 1955, são geralmente considerados os anos de ouro, tendo-se assistido a um desinteresse pelo género na década de 60. A partir dos anos 70, nomeadamente com a reinvenção a que Hollywood se sujeitou, é que novos autores fizeram renascer o film noir, num período denominado de Neo Noir. No entanto, as circunstâncias e a envolvência da indústria cinematográfica, e do próprio mundo, não eram as mesmas e o género também não. Desde então, que o film noir tem subsistido à custa de filmes onde é possível identificar alguns traços do género, mas que dificilmente se poderá dizer que são verdadeiros film noir.

A produção de film noir foi bastante prolífera, sendo possível identificar centenas de filmes só no período clássico. Filmes como Pagos a Dobrar, O Terceiro Homem, A Mulher que Viveu Duas Vezes, A Sede do Mal, A Sombra do Caçador, Amar Foi a Minha Perdição, Detour, Gilda, Matar ou Não Matar, Paixões em Fúria, À Beira do Abismo, entre outros, são verdadeiros marcos e ajudaram a definir o género e a torná-lo um dos mais fascinantes da história da sétima arte.

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