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Pancho Villa e o Cinema

O cinema está recheado de histórias incríveis e nenhum outro período é tão fértil como o do cinema mudo. Uma dessas histórias é a do revolucionário mexicano Pancho Villa, que assinou um contracto com a Mutual Film Corporation para a venda dos direitos cinematográficos da revolução mexicana.

No início do século XX, o México era liderado pelo presidente Porfirio Diaz, cuja governação oprimia o povo e levou à insurreição em 1910. Uma das facções revolucionárias era comandada pelo general Pancho Villa, que dominava o norte do país e a fronteira com os Estados Unidos. Como excelente estratega que era, Villa, cujo nome verdadeiro era José Doroteo Arango Arámbula, cedo se apercebeu da importância dos meios de comunicação e utilizou-os para promover a sua imagem, nomeadamente nos Estados Unidos. É neste contexto que Villa assina um contracto, em 1914, com a Mutual para a cedência dos direitos cinematográficos das suas acções militares, no valor de 25 mil dólares mais parte dos lucros do filme.

Na época, a popularidade do cinema nos Estados Unidos crescia a cada dia que passava e todos os filmes eram poucos para um público ávido de novidades cinematográficas. A par de melodramas e comédias, os newsreels com imagens de guerra eram também bastante populares e, neste contexto, o contracto entre a empresa cinematográfica americana e o revolucionário mexicano surge naturalmente.

Ao longo dos anos, muitas histórias têm sido escritas sobre o contracto, nomeadamente sobre as suas “estranhas” cláusulas. Uma delas supostamente referiria que as batalhas apenas poderiam decorrer entre as 9h da manhã e as 16h da tarde, uma vez que era o período ideal para se filmar. Mais, seria o operador de câmara que, ao gritar “acção!”, daria início aos ataques de Villa. Outra história que chegou até aos nossos dias é a da Mutual ter “vestido” Villa e os seus homens com guarda-roupa de filmes, já que os trajes dos mexicanos não tinham impacto cinematográfico suficiente. Estas histórias são isso mesmo e o único exemplar existente do contracto (que se encontra num museu no México) nada refere sobre estas cláusulas.

O que se sabe verdadeiramente é que as condições de filmagem não foram fáceis e o actor e realizador Raoul Walsh (A Pista dos Gigantes), que a Mutual enviou para o México, viu-se obrigado a encenar as cenas de batalha, utilizando os próprios guerreiros de Villa. No entanto, nem assim a Mutual ficou muito entusiasmada com as imagens que chegavam do México. Uma vez que as imagens não eram muito diferentes do que as conseguidas noutras guerras sem contrato, a empresa alterou a sua estratégia e decidiu produzir um filme de ficção sobre a vida de Pancho Villa (The Life of General Villa) e onde foram incorporadas as imagens já filmadas. Com as novas novas indicações da Mutual, Walsh regressou a Los Angeles, onde completou o filme com cenas rodadas em estúdio e interpretou um jovem Pancho Villa.

The Life of General Villa, que está dado como perdido, estreou em Nova Iorque no dia 14 de Maio de 1914 e foi bem recebido, quer pela crítica, quer pelo público. No entanto, é referido como um banal melodrama, que vale mais pela sua perspectiva histórica do que pela sua mais-valia artística.

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Sallie Gardner at a Gallop


Um cavalo a galope coloca as 4 patas simultaneamente no ar? Embora banal nos dias de hoje, a questão era bastante pertinente na segunda metade da década de 1870 e a sua resolução viria a transformar a sociedade, dando origem às “imagens em movimento” e ao cinema propriamente dito.

Eadweard Muybridge, um fotógrafo profissional com trabalho reconhecido em imagens paisagísticas, foi contratado pelo, então, Governador da Califórnia e amante de cavalos Leland Stanford, para ajudar a resolver uma aposta, que tinha por base a referida dúvida equina. Muybridge realizou, então, uma primeira experiência em 1877, cujo resultado foi recusado devido a suspeitas de manipulação das fotografias, aquando da sua revelação. O fotógrafo não desistiu e um ano depois idealizou nova experiência: ao longo de um percurso, colocou máquinas fotográficas (12 ou 24, consoante as fontes) espaçadas regularmente, que eram accionadas pelo cavalo a galope, através de fios. De forma a tornar o processo transparente, Muybridge convidou jornalistas a assistirem à experiência e tinha no local os meios para revelar as fotografias no momento. O sucesso da experiência conseguiu demonstrar que um cavalo a galope mantém, a espaços, as quatro patas no ar e Standford ganhou a aposta.

Por muito importante que a experiência fosse, ela apenas se torna importante para a história do cinema em 1879, quando Muybridge adaptou as fotografias de forma a puderem ser vistas como uma sequência animada, através do seu projector Zoopraxiscope. Sallie Gardner at a Gallop tornou-se, assim, no primeiro “filme” da história. Embora a sua natureza seja discutível, a verdade é que a sequência de imagens foi determinante na concepção do cinema e influenciou diversas áreas, como a fotografia, a ciência e mesmo a arte (o trabalho que Muybridge continuou a desenvolver na captura do movimento humano e animal ajudou artistas a compreender e melhor representar a noção de movimento).

Embora o objectivo de Muybridge fosse o de resolver um problema científico, o seu trabalho foi importante para o cinema, já que, quer, a sequência de fotografia quer o Zoopraxiscope, levaram ao Kinetescope, que, por sua vez, levou ao cinematografo e por ai adiante, até ao cinema de hoje. A influência do trabalho de Eadweard Muybridge é tal, que ainda hoje deixa marca no cinema (digital) moderno, como se pode ver em Matrix (1999): o filme dos irmãos Wachowski utiliza a mesma ideia base para construir as sequências em ultra câmara lenta, que tornaram o filme um sucesso.

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Fantomas

Um dos mais populares personagens da ficção francesa do início do século XX, Fantomas foi criado pelos escritores Marcel Allain e Pierre Souvestre em 1911 e surgiu num total de 43 livros, 32 escritos por ambos os autores e 11 apenas por Allain, após a morte de Souvestre em 1914.

Fantomas caracteriza-se pela sua violência, crueldade, deslealdade e sadismo, para além de ser um verdadeiro enigma, já que não existe nenhuma descrição da sua aparência física, o que aliado à sua grande capacidade de disfarce, faz com que Fantomas seja qualquer pessoa. Estas características, aliadas ao grafismo que Gino Starace criou para as capas dos livros, aproveitando precisamente o mistério à volta da figura de Fantomas, tornaram as histórias criadas por Allain e Souvestre um verdadeiro sucesso, inclusive junto dos surrealistas, que consideravam os livros obras literárias e se inspiraram na personagem para os seus trabalhos, como o pintor René Magritte, por exemplo.

O sucesso de Fantomas, que foi um verdadeiro fenómeno cultural, abrangeu também o cinema, com os principais estúdios franceses, em particular a Pathé e a Gaumont a lutarem pelos seus direitos cinematográficos. A Gaumont “ganhou” a corrida e, entre Abril de 1913 e Maio de 1914, produziu cinco serials realizados por Louis Feuillade, que são, ainda hoje, considerados obras de arte do cinema mudo. Com um total de 22 episódios, os serials foram produzidos rapidamente e criaram um género próprio, que era inventado à medida que cada episódio era rodado. Embora não sejam tão evoluídos tecnicamente como os futuros serials de Feuillade, nomeadamente Les Vampires (1915-1916) e Judex (1916), os filmes de Fantomas marcaram a história do cinema e contribuíram definitivamente para a popularidade da personagem.

Em 1920, a Fox produziu uma versão americana do serial de Feuillade, que pouco tinha ver com o original francês. Dividido em 20 episódios de duas bobines cada, Novo Fantomas, realizado por Edward Sedgwick e protagonizado por Edward Roseman, apenas foi parcialamente (12 episódios) distribuído em França, sob o título Les Exploits de Diabolos.

Pouco após o advento do cinema sonoro, Paul Fejös realiza, em França, a longa-metragem sonora Fantomas (1932) com base no primeiro livro de Marcel Allain e Pierre Souvestre e cinco anos depois, Ernst Moerman realiza, na Bélgica, a curta-metragem muda Monsieur Fantômas.

Após um hiato de perto de 10 anos, a personagem Fantomas é revista após a Segunda Guerra Mundial, sendo produzidas duas longas-metragens francesas: Fantomas (1947) e Fantomas Contra Fantomas (1948), dois filmes a preto e branco, em que a personagem principal é interpretada por Marcel Herrand e Maurice Teynac, respectivamente. As duas actualizações/remakes não alcançam grande sucesso e a personagem “desaparece” durante mais de 15 anos do grande ecrã.

Apenas na década de 60 é que se assiste a uma nova tentativa de actualização da personagem criada por Allain e Souvestre, com três filmes a cores produzidos em rápida sucessão, com praticamente a mesma equipa técnica e protagonizados por Jean Marais e Louis de Funés. Fantômas (1964), Fantômas Se Déchaîn (1965) e Fantômas Contre Scotland Yard (1966) nunca atingiram o sucesso dos serials de Feuillade, mas a sua influência na cultura dos anos 60 é bem visível, como se pode constatar na banda desenhada italiana Diabolik (e respectiva adaptação cinematográfica) e filmes nos da Pantera Côr-de-Rosa, protagonizados por Peter Sellers.

Embora Fantomas tenha “desaparecido” do grande ecrã após as produções da década de 60, a personagem continua a ser uma referência cultural, nomeadamente em séries de televisão e bandas desenhadas. Quanto ao cinema, Fantomas regressará, com certeza, ao grande ecrã.

Lista dos 13 filmes com base na personagem Fantomas, criada por Marcel Allain e Pierre Souvestre:

01. Fantômas – À l’ombre de la guillotine (1913)
02. Juve Contre Fantômas (1913)
03. Le Mort Qui Tue (1913)
04. Fantômas Contre Fantômas (1914)
05. Le Faux Magistrat (1914)
06. Novo Fantomas (1920)
07. Fantomas (1932)
08. Monsieur Fantômas (1937)
09. Fantomas (1947)
10. Fantomas Contra Fantomas (1948)
11. Fantomas (1964)
12. Fantomas Passa ao Ataque (1965)
13. Fantômas Contra a Scotland Yard (1966)

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Charlie Chan

Detective de origem chinesa da Polícia de Honolulu, Charlie Chan é uma personagem criada pelo escritor Earl Derr Biggers em 1923 e que foi adaptada ao cinema 57 vezes, tendo também surgido em programas de rádio, peças de teatro, televisão, entre outros.

Earl Derr Biggers criou a personagem com base em Chang Apana e Lee Fook, dois sargentos de origem chinesa da polícia de Honolulu, que o escritor conheceu quando passava férias no Havai, em 1919. Biggers concebeu a personagem como uma alternativa ao, então, estereótipo de personagens chinesas, tornando-a numa pessoa amável e do lado da lei. No entanto, a personagem não é a principal no primeiro livro em que surge (“The House Without a Key“), mas o sucesso da obra fez com que Biggers escrevesse uma nova história, então sim, protagonizada por Charlie Chan. Esta segunda obra (“The Chinese Parrot”) torna-se um sucesso ainda maior e Biggers passou a dedicar-se em exclusivo aos livros de Charlie Chan.

O sucesso dos livros chamou a atenção da indústria cinematográfica, que rapidamente os adaptou ao grande ecrã. A primeira versão cinematográfica com a personagem de Charlie Chan foi o serial de 10 episódios The House Without a Key, produzido pela Pathé Exchange em 1926. No ano seguinte, a Universal Pictures produz The Chinese Parrot e, em comum, as duas produções têm o facto de serem mudas, Charlie Chan ser interpretado por actores asiáticos e este não ser a personagem principal dos filmes.

Em 1929, a Fox Film Corporation adquire os direitos cinematográficos da terceira obra de Biggers (“Behind That Curtain“) e produz a sua adaptação cinematográfica. No entanto, Charlie Chan ainda não surge como a personagem principal e é interpretada pelo actor coreano E.L. Park. Apenas no segundo filme da Fox (Charlie Chan Carries On) é que o sucesso chega, dando início à série de filmes mais conhecida de Charlie Chan e que resultou num total de 44 filmes. Curiosamente, o sucesso foi alcançado num filme em que a personagem é interpretada por um actor branco, Warner Oland. O actor sueco viria a vestir a pele do detective chinês por mais 15 vezes e a sua interpretação gentil e amável (que é um pouco diferente do original de Biggers) ajudou ao sucesso dos filmes e à popularidade da personagem. Aliás, o sucesso dos filmes de Charlie Chan permitiu à Fox sobreviver ao período difícil que o estúdio atravessou durante a Grande Depressão.

A morte de Warner Oland, em 1938, não interrompeu a série de filmes, tendo a Fox apostando noutro actor branco para interpretar o detective asiático, o americano Sidney Toler. Este interpreta um Charlie Chan mais próximo do original de Biggers e viria a interpretar a personagem em todos os filmes produzidos pela Fox, até esta suspender a produção da série em 1942. Toler compra, então, os direitos sobre a personagem e a Monogram Pictures, um dos mais famosos estúdios da “Poverty Row“, decide continuar a produção da série, com Toler como protagonista. A Monogram era uma produtora de filmes B e é isso mesmo que os novos filmes de Charlie Chan passam a ser, cuja qualidade reflecte o orçamento médio de 75 mil dólares de cada filme (na Fox, o orçamento médio era de 200 mil dólares).

Sidney Toler morre em 1947, após interpretar a personagem de Charlie Chan em 22 filmes (11 em cada estúdio) e Roland Winters substitui-o nos últimos 6 filmes produzidos pela Monogram, o último dos quais em 1949. Nas três décadas seguintes Charlie Chan não surge no grande ecrã e só em 1981 é que se assiste a uma nova adaptação do personagem, desta vez interpretado por Peter Ustinov (Charlie Chan and the Curse of the Dragon Queen).

Embora a série de filmes produzida pela Fox e pela Monogram seja a mais conhecida, a personagem de Charlie Chan surgiu em outros filmes, nomeadamente em versões em língua espanhola e numa série de filmes produzidos, primeiro em Xangai  e, depois, em Hong-Kong. O primeiro filme em espanhol (Eran Trece) foi uma adaptação do primeiro filme da Fox (Behind That Curtain), produzido ao mesmo tempo que a versão em inglês, mas com pequenas alterações no argumento. Os dois restantes filmes em língua espanhola são a produção cubana La Serpiente Roja, de 1937, e El Monstruo en la Sombra, uma produção mexicana de 1955.

Os filmes asiáticos foram produzidos durante a década de 30 e 40 e as histórias continham elementos diferentes do original de Biggers. Os 6 filmes produzidos revelaram-se um grande sucesso e a popularidade de Charlie Chan na China, onde os filmes americanos também foram exibidos com igual sucesso, deveu-se ao facto de, pela primeira vez, uma personagem chinesa ser vista de forma tão positiva, fugindo do habitual estereótipo de vilão.

Ao longo das décadas, a personagem de Charlie Chan tem sido alvo de diversas interpretações, críticas e controvérsia, discutindo-se se a personagem é um modelo positivo ou se é um estereótipo ofensivo. Muitas têm sido as opiniões e, actualmente, a personagem tem sido vista de uma forma mais negativa. No entanto, a verdade é que os seus filmes revelaram-se bastante populares (e ainda hoje o são), tendo ajudado a alterar a forma como a sociedade norte-americana via, na época, os cidadãos chineses.

Lista dos 44 filmes de Charlie Chan que compõem a série produzida, primeiro, pela Fox Film e, depois, pela Monogram Pictures:

01 – Charlie Chan Carries On (1931)
02 – The Black Camel (1931)
03 – Charlie Chan’s Chance (1932)
04 – O Cofre Misterioso (1933)
05 – A Coragem de Charlie Chan (1934)
06 – Charlie Chan em Londres (1934)
07 – Charlie Chan em Paris (1935)
08 – Charlie Chan no Egipto (1935)
09 – Charlie Chan em Xangai (1935)
10 – Charlie Chan na Califórnia (1936)
11 – Charlie Chan no Circo (1936)
12 – Charlie Chan nas Corridas (1936)
13 – Charlie Chan na Ópera (1936)
14 – Charlie Chan nos Jogos Olímpicos (1937)
15 – Charlie Chan na Broadway (1937)
16 – Charlie Chan em Monte Carlo (1938)
17 – Charlie Chan em Honolulu (1939)
18 – Charlie Chan na Pista do Criminoso (1939)
19 – Charlie Chan na Ilha do Tesouro (1939)
20 – Charlie Chan in City in Darkness (1939)
21 – Charlie Chan no Panamá (1940)
22 – Charlie Chan’s Murder Cruise (1940)
23 – Charlie Chan at the Wax Museum (1940)
24 – Murder Over New York (1940)
25 – Dead Men Tell (1941)
26 – Charlie Chan no Rio (1941)
27 – Castle in the Desert (1942)
28 – Serviço Secreto (1944)
29 – O Gato Chinês (1944)
30 – Casa Enfeitiçada (1944)
31 – The Jade Mask (1945)
32 – A Bala de Sangue (1945)
33 – The Shanghai Cobra (1945)
34 – The Red Dragon (1945)
35 – Dark Alibi (1946)
36 – Shadows Over Chinatown (1946)
37 – Dangerous Money (1946)
38 – The Trap (1946)
39 – The Chinese Ring (1947)
40 – Docks of New Orleans (1948)
41 – The Shanghai Chest (1948)
42 – The Golden Eye (1948)
43 – The Feathered Serpent (1948)
44 – The Sky Dragon (1949)

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